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Série O Gambito da Rainha é o sopro de genialidade numa década áspera  para as mulheres


Quando Kasparov foi derrotado por Deep Blue, o famoso computador da IBM, em 1997, questionava-se ali o real poder da mente humana, onde até o maior enxadrista de todos os tempos sucumbia ao pragmatismo da máquina construída pelo próprio homem.

Por mais que, anos depois fora comprovado um bug em Deep Blue, que desestabilizou por completo o multicampeão, ali foi visto o poder de uma “mente” capaz de antever tantas jogadas que pouco conseguimos imaginar.

Acontece que a genialidade também é pragmática.

A repetição de movimentos, os treinamentos, a incessante busca pela primazia e o coelho que sai repentinamente da cartola são elementos que fazem de certos esportistas os melhores do mundo, comparando-os com as próprias máquinas. Gênios.

E é assim também no xadrez. Só que confrontar o gênio com a máquina não é algo que O Gambito da Rainha se propõe a fazer, mas encaixa perfeitamente uma esportista em um mundo de timidez, drogas, alcoolismo e muito, muito xadrez, que faz de Anya Taylor-Joy uma genial enxadrista dentro de sua própria confusão.

Série O Gambito da Rainha da Netflix

Divulgação: Netflix

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Série O Gambito da Rainha

Gambito é uma jogada tradicional no xadrez, onde o peão acaba sendo sacrificado -pobre peão, em prol de uma próxima jogada, no intuito de abrir caminho para movimentos posteriores.

A analogia com a série é perfeita nesse sentido. Aqui, Beth Harmon é uma menina órfã que aprende a jogar xadrez com o zelador de seu internato. Entre vícios em drogas que ingere desde a infância, alcoolismo na fase adulta, e abdicação dos prazeres vida, a garota concentra toda sua capacidade mental em pensar jogadas e aprender mais sobre o esporte. Como alguém que desiste das distrações do presente e almeja a consagração do futuro.

O Gambito da Rainha é a própria Beth Harmon.

Com uma dinâmica gostosa e montagem prazeirosa de ver nas mãos de Scott Frank (Logan), O Gambito da Rainha descola dessa ideia elitista que ronda o esporte e mostra que o xadrez também pode ser pop.

E muito em parte disso é pela excelente Anya Taylor-Joy, que desfila toda uma elegância que já é tradicional em si, e segura a série por completo. A atriz passeia por momentos depressivos, recheados de abstinência, charmosos, sublimes, carismáticos e nada impetuosos. Sua personagem exige sempre uma insegurança por conta de seu passado e isso reflete em absolutamente todas as ações de Harmon em O Gambito da Rainha.

Talvez seu background com a perda da mãe biológica tenha deixado a desejar dentro dessa ideia de construção de uma personalidade. O trauma que a afeta, quase que como um estado de choque permanente, pouco influencia em sua trajetória, exceto por algumas lembranças que se vão como um movimento rápido de um cavalo.

Quando Harmon descobre o xadrez dentro do internato, é como se o mundo voltasse só para aquele desejo da garota aprender a jogar. E ser melhor a cada dia. Os gênios são assim. Mesmo que de forma introspectiva, buscam a primazia naquilo que os consome e cada movimento, no caso do jogo, é pensado à exaustão, até achar todas as possibilidades possíveis para sair daquela situação.

Acontece que o outro lado da genialidade sempre afronta qualquer pessoa que tente ser a maior de todas. Olhe para o Messi, por exemplo. Tido como um dos gênios dessa atual geração de esportistas. Por vezes, passa o jogo cabisbaixo, olhando para a grama verde, enquanto caminha lentamente em direções diferentes, parecendo desenhar no chão cada lance que pode acontecer dali em diante. Esse desligamento do jogo é a chave que ele precisa para ir buscar a bola, criar uma jogada inesquecível e marcar um golaço, colorindo a ideia que havia desenhado lá trás.

Nem sempre da para vencer. Mas ele sempre será genial.

E o mesmo acontece com Beth Harmon. Quando a garota deita na cama e olha para o teto, é como se desenhasse as jogadas de Messi. Ao ver o tabuleiro de xadrez e todas as suas peças se movendo, a enxadrista ensaia seu movimento e mentaliza as jogadas tão a frente do seu tempo quanto Deep Blue pode imaginar.

Divulgação: Netflix

O Gambito da Rainha vale a pena?

A série da Netflix é um retrato muito interessante da década de 60. Os costumes, as roupas, as músicas, as maquiagens e a sociedade, vivem em um clima bem amistoso. Não existe aqui uma animosidade tão gritante com relação à mulher no mundo esportivo nem com os negros, justo numa época em que essa tensão era bem gritante.

Exceto por alguns diálogos mais provocativos, não foi esse o foco de O Gambito da Rainha.

Mostrar uma jovem genial tentando chegar ao topo do mundo entre vícios e virtudes faz da série O Gambito da Rainha uma boa experiência e até de entendimento do xadrez. Quem não está tão acostumado com o esporte, vai viajar nas expressões técnicas e táticas mas vai comprar a ideia.

Anya Taylor-Joy demonstra novamente porque é uma das melhores atrizes de sua geração e mostra que tem sua personagem completamente debaixo dos braços, dando as notas que precisa dar e as jogadas que precisa fazer, sempre com muita precisão.

E elenco de apoio com Thomas Brodie-Sangster completamente diferente do que vimos em Game of Thrones, Harry Melling (Harry Potter) a novata Moses Ingram e a mãe adotiva vivida por Marielle Heller (Um Lindo dia na Vizinhança) são o suporte necessário que fazem Taylor-Joy brilhar e ajudam a manter a qualidade da série da Netflix.

O Gambito da Rainha tem um ritmo contagiante, regrado à boa música, diálogos rápidos e resoluções bem convincentes dentro do que se propõe. É muito gostoso acompanhar a ascensão da protagonista e entrar afundo na cabeça de uma pessoa genial.

Dá até vontade de tirar o tabuleiro de xadrez do armário e começar a brincar. Mas não a ponto de desafiar Deep Blue. Tão pouco chegar aos pés do que foi Beth Harmon.


O Gambito da Rainha está disponível na Netflix

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