AODISSEIA
Filmes

Por que “Sequestro Relâmpago” pode ser difícil de assistir?

A ficção não é tão cruel como a vida e tomamos esse tapa aqui

28 de novembro de 2018 - 00:53 - felipehoffmann

Eu não preciso começar esse texto afirmando que o abismo social brasileiro é enorme, certo? A gente sabe disso e quando deparamos com um longa como Sequestro Relâmpago essas verdades são jogadas na nossa frente, fazendo refletir sobre nossa situação de classes.

Ou pelo menos deveria.

Um espectador casual talvez entre na sala de cinema querendo assistir um típico filme de ação hollywoodiano, todo maniqueísta, com vilões e mocinhos bem definidos, perseguições em alta velocidade e explosões absurdas. E, se você procura isso por aqui, sinto lhe dizer, Sequestro Relâmpago não é pra você.

Dirigido por Tata Amaral, o filme conta a história de Isabel (Marina Ruy Barbosa), uma jovem de classe média que sai para beber com os amigos e acaba sendo sequestrada por Matheus (Sidney Santiago) e Japonês (Daniel Rocha), dois caras de realidades muito diferentes da garota.

 

 

Matheus é da periferia, negro, casado e pai de um recém nascido. Ele se envolve no lance do sequestro pra ter uma grana e ajudar a família em casa. Japonês, frentista, cai nessa por querer um dinheiro a mais e para provar a si mesmo que consegue fazer as coisas à margem da lei em troca de um falso respeito.

Boa parte de Sequestro Relâmpago se passa dentro de um carro e isso cria um enclausuramento bem forte. O senso de urgência e o medo transparente no olhar da vítima é um combustível pra toda essa tensão. O roteiro do longa consegue criar algumas camadas para os personagens e isso catalisa todas essas sensações.

Não é fácil rodar um longa quase todo dentro de um carro. Por isso o poder do texto precisa aparecer, por que é o que tem de âncora pra mostrar as diferenças entre as pessoas ali dentro. Se por um lado Matheus é sensato – dentro daquela perspectiva de sequestro, e tenta manter uma calma aparente, Japonês é estourado, nervoso e age sempre por impulso e adrenalina daquela sensação. Isabel passeia por várias emoções, sempre com o medo estampado, mas tenta dialogar, fugir, se envolver, enganar e resolver toda a situação.

Sequestro Relâmpago assusta pela verossimilhança e isso pode incomodar quem espera um super filme de ação. A história, baseada nos relatos reais da artista Ana Beatriz Elorza, cria uma dicotomia bem clara entre o que é o mundo para Isabel e o que é o mesmo para Matheus e Japonês. Por mais que a jovem tente dialogar e se equiparar aos sequestradores, fica claro que os universos ali são bem diferentes.

 

– Eu e você somos iguais.

– Você já foi pra Disney? Tem descarga em casa? Então não força a amizade, mina!

 

Contudo, o longa não passa imune à cenas que incomodam de fato. São duas situações específicas que, até onde consegui apurar, não aconteceram. A cena do segurança no shopping e na hamburgueria são situações criadas para gerar tensão mas esbarram em uma condução ruim e atuações bem artificiais. E isso até o mais desatento pega no ar, piorando sua experiência.

 

 

Ainda que Sequestro Relâmpago construa um clímax bem tenso e ofegante, essas situações enfraquecem o longa. Entretanto, a camada mais profunda dessa discussão sobressai aos pontos técnicos do filme. Não existem heróis ou vilões aqui. São conjunturas sociais que colocam cada personagem dentro de um bloco da pirâmide e evita demonizar os sequestradores, até certo ponto.

Na verdade, Tata Amaral os humaniza e cria alguns níveis dentro da história de cada um. Mas quando nos empatizamos com eles, lembramos o quão cruéis podem ser. Se o longa te incomoda, como fez com algumas pessoas na minha sessão, pode ser que a ficção esteja mais presente na sua vida do que a própria realidade.