AODISSEIA
Filmes

Critica: Sem Escalas


20 de junho de 2014 - 16:00 - Flávio Pizzol

maxresdefault (1)

Sem Escalas é um dos filmes mais clichês do ano, mas também é um filme competente. Por um bom tempo de filme, o roteiro, a direção e a figura batida do herói típico de Liam Neeson conseguem prender o público em um suspense claustrofóbico e divertido.

Remetendo as histórias de suspense de Agatha Christie (me lembro muito de O Expresso do Oriente) e aos filmes B que restringiam suas histórias a poucos cenários (por escolha ou falta de dinheiro, não importa), Sem Escalas se passa quase que todo em um avião. A história segue uma espécie de policial federal que cuida do espaço aéreo, viajando como uma pessoa normal. Os problemas do filme começam quando um alguém desconhecido começa a mandar mensagens para o herói, dizendo que uma pessoa será morta a cada 20 minutos, se 150 milhões não forem transferidos para uma conta.

A partir desse ponto, o roteiro faz toda a história girar em torno de um mistério muito usado em novelas brasileiras. “Quem foi o responsável pelos assassinatos?” é a única pergunta que precisaria de resposta e o filme seria melhor se parasse nessa resposta – mesmo que soasse incompleto. Digo isso, porque os problemas do roteiro começam quando descobrimos quem é a mente por trás do plano. Suas motivações soam fracas (e mais clichês do que tudo o que foi visto no filme) e geram reviravoltas sem motivos, que prejudicam o filme.

Mas voltemos a parte boa. O um dos grandes méritos do filme é ser despretensioso, assim como os filmes B que tenta emular. O filme não se leva a sério, usa os clichês na cara dura e ainda é certeiro em satirizar os estereótipos criados pelos EUA após o fatídico 11 de setembro. Não é a toa que, desde o início, a câmera insiste em focar nos negros, nos mal encarados e no pobre e inofensivo médico árabe.

O outro acerto é básico. O filme é um suspense envolvente e eficiente, já que prende o público em uma trama interessante, bem montada e cheia de pistas falsas. Dos mistérios de Agatha Christie saem alguns momentos clichês que não funcionam dentro de um avião (afinal, não estamos em um jantar da alta sociedade britânica), mas vale a intenção de mostrar que a fonte novelística é boa.

Mas a construção dos bons momentos de suspense passam pela direção segura do espanhol Jaume Collet-Serra. O diretor, que se tornou conhecido por filmes de terror, como A Orfã e A Casa de Cera, faz um trabalho minucioso na criação da tensão em torno dos passageiros e do próprio herói (que é humano e, por isso, é colocado como possível culpado por um curto tempo). Algumas escolhas estéticas naturais do terror americano, como os lentos travellings feitos em corredores, funcionam e são completadas por ideias novas ligadas a tecnologia, como o surgimento das mensagens na tela e o uso constante das câmeras de segurança.

Também é muito interessante ver o diretor, de maneira similar ao ao que fizeram os roteiristas, ir abraçando os clichês no decorrer do filme. É como se ele só tivesse se preocupado com a parte onde o roteiro era bom e depois tivesse jogado tudo pro alto, tanto que chega ao máximo do clichê no finalzinho do longa, quando usa a câmera lenta no momento do confronto entre o herói e o vilão.

O elemento tem alguns rostos um pouco conhecidos, mas é liderado por um Liam Neeson mais canastrão do que nunca. E não poderia ser diferente, já que essa é a carreira atual de Neeson, que fez o caminho contrário do outros atores de sua geração e abraçou os filmes B de ação e espionagem. Mais uma vez, o público acaba torcendo por um personagem básico e de pouca palavras, mas que se apoia no gigantesco carisma que Neeson acumulou junto ao público que curte essas produções.

O restante do elenco vem, em sua maioria de séries de TV e tem tão pouco destaque, que eu não consegui entender o por que de Julianne Moore ter topado fazer parte desse filme. Nenhum personagem é tão complexo para justificar a presença de um grande nome no elenco. Tirando Neeson, que é perfeito no papel que escolheu para viver.

Tenho que admitir que não dava nada pelo filme, tanto que não me dei ao trabalho de ir ao cinema assisti-lo, mas me surpreendi com um roteiro razoável, uma direção competente e uma tensão que me prendeu. Infelizmente, o final do filme resolve acompanhar o avião e cai vertiginosamente, mas nada que atrapalhe o filme, que serve perfeitamente como um despreocupado programa de final de semana.

OBS 1: Prestem atenção na participação de luxo da atriz Lupita Nyong’o, vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante nesse ano por 12 Anos de Escravidão.