AODISSEIA
Filmes

Crítica: Sem Amor

Novo filme do diretor de Leviatã é frio e melancólico como deve ser.

14 de fevereiro de 2018 - 10:57 - Tiago Soares

Não é uma semana fácil para o cinema good vibes. Além de O Sacrifício do Cervo Sagrado – um filme extremamente difícil de assistir – também está em cartaz Sem Amor (Loveless, no original), um filme frio e sem perspectiva de melhora. Indicado a melhor filme estrangeiro do Oscar desse ano – do mesmo diretor indicado em 2015 por Leviatã Andrey Zvyagintsev, Sem Amor segue a mesma cartilha, mostrando uma Rússia que está perdendo seus valores morais.

Na história, Boris (Aleksey Rozin) e Zhenya (Maryana Spivak) são um casal prestes a se divorciar. Ele praticamente já tem outra família, ela já está com outro homem com uma condição financeira bem melhor. Ambos vivem em pé de guerra e não perdem a oportunidade de se xingarem sempre que se encontram. Por isso o filho Alyosha (Matvey Novikov), acaba não ganhando tanta atenção, até que um dia desaparece misteriosamente.

O cuidado de Andrey ao retrator o descaso dos pais perante a situação é estarrecedor. Não há qualquer evidência de que houve amor nas inúmeras respostas do casal a polícia. Amar é conhecer, e Boris e Zhenya apresentam um resultado bem longe disso. Sem contar que os dois não perdem a oportunidade de se digladiarem, mesmo com toda a situação.

São poucos os resquícios de humanidade e muito menos amor, se é que isso houve entre os dois. O diretor mostra a vida pessoal e separada de ambos – omitindo ao máximo o filho – limitando-o a uma ou duas cenas, para trazer a nós a sensação de descasoAlyosha sumiu há tempos, mas eles só se dão conta muito depois, é um exercício de desprezo e dor.

Apesar de perder parte do seu foco devido a problemas de ritmo e até mesmo duração, o drama vai ganhando contornos melancólicos a medida que o tempo passa e não se sabe o que aconteceu com o garoto. A fotografia predominantemente azulada, já usada em Leviatã, dá um tom de falta de esperança. A ausência de trilha afugenta ainda mais um fim que já parece definido.

Os longos minutos de silêncio, dão espaço a um choro ensurdecedor – quando a incerteza misturada com indiferença – se torna aquilo que define os pais: eles não conhecem o próprio filho. Alyosha se tornou um estranho para eles, e isso faz com que eles se sintam muito mais culpados e nunca mais voltem a ser os mesmos.