AODISSEIA
Filmes

Crítica: Selma – Uma Luta Pela Igualdade


23 de fevereiro de 2015 - 15:39 - Flávio Pizzol

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Esse é, definitivamente, o ano das cinebiografias no Oscar, sem importar se os personagens retratados são heróis de guerra, caminhantes em busca de redenção ou pessoas que realmente mudaram o mundo. O único indicado a Melhor Filme que faltava na minha lista era esse Selma, que faz um retrato parcial – mas interessante – de Martin Luther King.

O longa segue Dr. King (como ele é chamado em boa parte do filme) durante a reta final de sua luta pelo direito dos negros de votarem, focando totalmente nas várias marchas realizadas na cidade de Selma, no Alabama. Durante essas passagens conseguimos entender a força e a importância de Martin, suas motivações e ideais para os negros que viviam nos EUA e no restante do mundo.

O fato do roteiro, escrito por Paul Webb, optar por focar em um pequeno trecho de uma luta que durou mais de uma década é interessante e, à primeira vista, é uma das coisas que mais chama a atenção. Essa decisão tem tanto seu lado bom quanto o seu lado ruim. Por um lado, pensando também no público não-americano, é interessante conhecermos uma parte da história que não é o seu famoso discurso em Washington, entretanto isso também pode deixar a impressão de que pouco de Luther King foi realmente mostrado.

No meu ponto de vista, a primeira opção se destaca mais e ainda ajuda muito no desenvolvimento da história, que pode se concentrar apenas naqueles eventos e fazer um retrato histórico quase perfeito, sendo que até documentos oficiais do FBI são usados para contar o decorrer dos fatos. É isso que acontece durante boa parte do filme onde tudo flui de maneira rápida e interessante, mas o roteiro acaba escorregando bastante em coisas bem simples.

O que mais me incomodou foi a falta de desenvolvimento de outros personagens com exceção de Martin e – talvez – do presidente Lyndon B. Johnson. Todos os personagens que cercam o Dr. King são apenas pincelados e isso dificulta a construção de todas as relações internas e externas, já que o público não se apega a nenhum desses personagens secundários. Personagens importantes são diminuídos e bons atores são desperdiçados por um texto que não tira o olho de Martin e se esquece que outras ajudaram a construir e manter aquilo ali.

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Nessa condição, o filme ainda enfraquece seus antagonistas e deixa de lado personalidades importantes para o seu desenvolvimento, sendo que, por uma grande ironia (ou erro da produção…), o final sabota o filme e deixa essa erro de construção bem claro. O que acontece é que vemos, durante o discurso de encerramento, vários personagens terem seus futuros contados através de pequenos textos, mas alguns deles só foram citados e outros nem isso conseguiram, como o xerife e a mulher (cujo o nome eu não lembro) que morreu 5 horas após o discurso.

É esse trecho final que também enfraquece o todo de Selma, já que o filme perde o fôlego exatamente onde ele deveria alcançar seu êxito. Se os negros tinham uma motivação suficientemente forte para caminhar 75 km de Selma a Montgomery, parece que o roteiro não treinou o bastante e, como um maratonista de primeira viagem, desmaiou bem pertinho da linha de chegada. Por muito pouco, Selma não teve o vigor para superar minhas expectativas.

A sorte do filme está no fato de ele ter outros elementos que surpreendem, superam as dificuldades textuais e valem as duas horas de filme, inclusive deixando ainda mais claro que o filme foi esnobado pelo Oscar em, pelo menos, duas categorias. A primeiro – e mais forte – fator é a brilhante direção de Ava DuVernay. Ela poderia, junto com David Fincher e Damien Chazelle, ter sido sido indicada ao Oscar no lugar de Morten Tyldum na categoria de direção e ainda se encaixaria na minoria negra e feminina que tanto faltou nesse ano.

Left to right: Tom Wilkinson plays President Lyndon B. Johnson and David Oyelowo plays Dr. Martin Luther King, Jr. in SELMA, from Paramount Pictures, Pathé, and Harpo Films. SEL-13350

As duas coisas que mais me chamaram a atenção no trabalho feito por Ava foram a câmera de mão e a estilização da violência. A câmera de mão remete diretamente ao estilo documental, que é cada vez mais utilizado no cinema atual, mas aqui ela tem um efeito maior do que a simples aproximação do público com os protagonistas. Já o caso da violência é realmente algo pouco usado em filmes desse tipo e até faz um certo contraponto ao tom documental.

Ela usa muita câmera lenta e uns ângulos diferenciados para criar uma violência estilizada, que choca sem forçar ou gastar galões de groselha. As várias cenas onde negros – e até alguns brancos – são explodidos, assassinados e espancados de maneira deliberada tem muita força e conseguem gerar alguma comoção em uma história que não grandes momentos emotivos sendo retratados.

O outro elemento que realmente foi esnobado no Oscar foi o ator David Oyelowo. Considerando que poucos coadjuvantes tem algum destaque (com exceção de Tom Wilkinson e Tim Roth), David tem todo o foco sobre si e constrói um Dr. King realmente forte e motivado que carrega todo um movimento e um filme nas costas. Tendo, inclusive, os discursos mais famosos sendo citados palavra por palavra, o ator consegue fazer um estudo e uma construção de personagem completa e complexa, que merecia sim marcar presença no Oscar.

Selma é um filme que peca no seu roteiro, mas acaba funcionando graças a direção sagaz de Ava DuVernay e a atuação forte de David Oyelowo. Não é um filme perfeito, mas funciona e, durante sua primeira metade, chegou a estar entre meus filmes favoritos da premiação. Poderia ser mais forte, poderia ser bem melhor, mas tem seus méritos e merece ser assistido, mesmo que seja só para ouvir a belíssima canção Glory nos créditos.


OBS 1: Não sei se foi um problema de desenvolvimento de personagem, mas Oprah Winfrey parece ter mais aparições só porque produz o filme. E o que mais me incomodou é que Annie Lee Cooper, o nome de sua personagem, não me é totalmente desconhecido.


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