AODISSEIA
Filmes

Crítica – Se a Rua Beale Falasse: o preto e a injustiça

"Esse país odeio os pretos cara"


8 de fevereiro de 2019 - 10:42 - Tiago Soares

Barry Jenkins é um diretor sensível e mostrou isso no filme vencedor do Oscar 2017 que o alçou ao sucesso, Moonlight. Nele ele fala sobre amor, mas também sobre descoberta, seja sobre sexualidade, seu lugar no mundo e até mesmo sobre a própria identidade. Em Se A Rua Beale Falasse o diretor vai além ao abordar temas como a dívida histórica, o racismo e a briga de classes ao mesmo tempo em que conta uma linda história de amor.

É como se Jenkins dividisse seu filme em dois. De um lado temos um casal que se conhece desde a infância: Tish Rivers (KiKi Layne) e Alonzo ‘Fonny’ Hunt (Stephan James) tem sua história de amor interrompida quando ele é injustamente acusado de abusar de Victoria (Emily Rios), uma porto-riquenha que morava em Memphis. Por outro lado, Tish está grávida e precisa passar por todos os desafios praticamente sozinha, contando apenas com o apoio da família ao mesmo tempo tenta em que tenta de todas as formas – tirar Fonny da cadeia.

Baseado na obra de James Baldwin (o mesmo do incrível documentário ‘Eu Não Sou Seu Negro’), o filme caminha entre as vertentes de um romance teatral e uma obra politicamente pensada. O texto adaptado por Jenkins não apenas demonstra o racismo escancarado dos EUA ao longo dos anos – ele toma um lado. Não há brancos salvadores na Rua Beale, todos são julgados como demônios e até aqueles que ajudam tem seus interesses pessoais.

Com uma narração em off e uma narrativa não-linear, Barry Jenkins se arrisca mudando totalmente seu estilo após seu filme mais famoso. Repleto de imagens das inúmeras injustiças raciais ocorridas durante os anos, seu novo trabalho pode ser interpretado como uma carta, não apenas de amor, mas de luta pela igualdade. O que permanece em Rua Beale são as cores. Se em Moonlight o diretor flertava com o roxo e azul, aqui ele brinca com o vermelho (amor), amarelo (medo) e verde (esperança).

As atuações são incríveis e suficientes para dizer que Se A Rua Beale Falasse merecia mais na temporada de premiações. Além do casal protagonista, cada aparição por mínima que seja de Regina King (The Leftovers) é um oscar tape particular. Aliás, não apenas pelo viés dramático – Jenkins flerta com a tensão em dadas situações e até com a comédia, na maior parte das vezes gerando um riso involuntário. É como se o diretor quisesse dizer que o excesso de dramas e problemas que ocorrem em famílias brancas, são igualmente passíveis a um elenco predominantemente negro.

A subtítulo desse texto é uma frase de Fonny ao seu amigo Daniel (Brian Tyree Henry). Em uma conversa profunda entre os dois regada a cigarros e cerveja é possível notar anos e mais anos de segregação através de um papo despretensioso carregado de tristeza. Os close-ups já característicos do diretor, exalam a verdade que aqueles personagens transmitem, e a trilha sonora faz de Se A Rua Beale Falasse um conto de amor e busca por justiça.