AODISSEIA
Séries

Crítica: ScoobyNatural

"Eu teria conseguido se não fossem essas crianças enxeridas..."

2 de Abril de 2018 - 12:41 - Flávio Pizzol

Supernatural foi a primeira série que eu “maratonei” na vida e essa conexão emocional é uma das coisas que me fazem assistir a série até hoje. Isso e, como eu insisto em defender solitariamente na redação desse site, sua capacidade de usar a criatividade para tirar sarro e renovar-se com histórias que nenhum ser-humano normal conseguiria imaginar. O resultado nem sempre é dos melhores (até eu preciso admitir), mas o retrospecto positivo adiciona alguns pontos na conta da série e ajudou a criar uma expectativa muito grande sobre a empreitada da vez: um crossover entre os irmãos Winchester e a Turma do Scooby-Doo.

A ideia pode parecer um tanto quanto louca por conta dos formatos distintos, mas a temática aproxima os dois programas de maneira muito natural. Assim como aconteceu com Dean, é possível enxergar o público de Supernatural como os adultos que cresceram vendo Scooby-Doo e, depois, acabaram evoluindo para os monstros reais. Dessa forma, aproveitando a visão de fã e os traços clássicos da Hanna-Barbera, a 13ª temporada chegou ao seu ápice com aquele que pode ser o episódio mais inesperado, nostálgico e divertido da história da televisão.

Sim, eu devo estar exagerando por estar escrevendo apenas alguns minutos após assistir a reunião de duas séries que marcaram minha vida, porém ainda posso garantir, sem nenhuma dúvida, que a experiência é definitivamente única e divertida. Mas vamos falar sobre o episódio com mais calma e alguns pequenos spoilers

Em primeiro lugar, o que faz esse crossover funcionar tão bem – e essa provavelmente deveria ser a regra pra qualquer tentativa do tipo – é o respeito e o carinho que os roteiristas James Krieg e Jeremy Adams (responsáveis por diversos longas animados da Warner) demonstraram ter com ambos os universos presentes na trama. Isso permite que ScoobyNatural consiga misturar com perfeição as principais características de Supernatural com o clima mais ingênuo de Scooby-Doo sem que a essência de nenhum dos dois lados seja abandonada. Para se ter uma ideia, o texto encontra até mesmo uma maneira crível e divertida de incluir esse choque entre as realidades (os monstros de verdade x bandidos fantasiados) como parte decisiva da trama.

Na história, os irmãos Winchester são sugados pela televisão e percebem que o único jeito de sair é resolver o caso que os levou até ali, assim já aconteceu pelo menos mais um momento no passado da série. O diferencial da nova aventura dos caçadores de monstros está no fato de que, dessa vez, eles são teletransportados para um dos episódios mais exibidos de Scooby-Doo (não vou revelar qual antes da hora) e precisam unir forças unir forças com esse grupo de investigadores que, por acaso, moldou o caráter de um pequeno Dean que ficava sozinho em qualquer hotel de beira de estrada durante as caçadas do pai.

É nesse contexto que, obviamente, surgem todas as referências particulares de Scooby-Doo e sua turma. Dean cumpre com perfeição seu papel de guia pela loucura metalinguística que começa a se formar desde o início, enquanto o público revisita as armadilhas loucas do Fred, as fugas alopradas de Salsicha e Scooby, a amizade de Velma e Daphne, os vasos sendo usados como esconderijos, a elasticidade cartunesca das bocas, a aparição surpresa de Scooby-Loo e até mesmo a utilização da música-tema na clássica cena do corredor cheio de portas. A nostalgia e a diversão (essas são as palavras-chave aqui) tornam-se a alma de um episódio que ainda surpreende quando a já citada ingenuidade que cerca esse universo sem perigos verdadeiros é colocada à prova pela presença dos irmãos. Os momentos onde isso vêm à tona geram boas piadas, entregam alguns momentos deliberadamente “chocantes”, como o nariz sangrando do Fred ou o braço quebrado do Salsicha, e relembram que ScoobyNatural não faz parte do universo do nosso querido cachorro falante.

Mesmo que a junção entre os universos seja uma das mais eficazes que eu vi nos últimos anos, o espectador comum não pode esquecer que está assistindo um episódio de Supernatural. Em outras palavras, uma série adulta que já está há treze anos no ar. A quantidade de temporadas não representa um problema tão grande, já que o episódio em si trabalha uma trama quase sempre isolada, porém o clima dos quarenta minutos de exibição pode soar levemente estranho para quem nunca viu o programa. O universo onde a série está situada e a personalidade dos protagonistas são os fios condutores da narrativa, justificando as mortes reais, a rixa entre Dean e Fred, o sangue e até mesmo a sexualização de Daphne. Nada é descaracterizado durante a transição, mas é importante ter alguma noção de tudo que cerca Supernatural para não se incomodar com certas escolhas narrativas.

Contando ainda com uma direção assertiva – o veterano Robert Singer faz questão de referenciar planos clássicos de ambos os programas – e participações do elenco atual de dubladores de tudo que tem saído com a Mistery Machine, o episódio é um deleite justamente para aqueles fãs de Supernatural que cresceram vendo Scooby e sua turma desmascararem promotores imobiliários fantasiados de fantasmas. A conclusão é um pouquinho óbvia demais, mas passa batida quando o que importa é ver as referências ao desenhos continuarem no live-action, com direito a Dean usando uma echarpe e o uso daquela frase clássica que abre esse texto. Como eu já devo ter deixado claro: se a galera queria  algumas doses de pura diversão e nostalgia que funcionassem para ambos os universos, ScoobyNatural entregou o pacote completo com perfeição.


OBS 1: Se você largou Supernatural há muito tempo e criou algum ranço da série, abandone seus preconceitos e assista ao menos esse episódio. Vai valer a pena!

OBS 2: Ver o casal Sam e Velma foi incrível, mas acompanhar a seriedade do Castiel sendo quebrada por Scooby e Salsicha não teve preço…

OBS 3: No Brasil, o episódio será exibido oficialmente pela Warner Channel no dia 10 de abril (terça-feira) ás 21:40. Fique ligado!

OBS 4: Fiquem com essa bela imagem pra finalizar…