AODISSEIA
Séries

Crítica: Santa Clarita Diet – 1ª Temporada

12 de abril de 2017 - 11:00 - Tiago Soares

Tão nojenta, quanto engraçada


A onda dos filmes e séries de zumbis estava morta desde que foi criada por George Romero, tomando um fôlego no início dos anos 2000, com Madrugada dos Mortos, indo pra comédia com Todo Mundo Quase Morto, Zumbilândia e galhofa total em Planeta Terror. Em 2010 o fenômeno The Walking Dead ganhou as telinhas, e fez o gênero voltar com tudo, gerando o sucesso com Brad Pitt, Guerra Mundial Z e o mais recente Invasão Zumbi. É claro que a comédia zumbi e galhofa também voltou, e séries como IZombie e Z Nation se destacam, tendo a sua parcela considerável de fãs e apreciadores. É nesta mesma pegada que a Netflix lançou Santa Clarita Diet. Ao mesmo tempo em que resgata a carreira da sumida Drew Barrymore, expande seu catálogo de séries de comédia, que ainda são poucas.

A série conta a história de Joel (Timothy Olyphant) e Sheila (Drew Barrymore), um casal que vive em Santa Clarita, condado de Los Angeles, Califórnia. Ambos vivem uma vida aparentemente feliz e regrada com sua filha Abby (Liv Hewson), até que um dia Sheila tem um surto e vomita todas as refeições possíveis, entre elas uma bola vermelha. Após isso, Sheila muda completamente seus hábitos – seu libido aumenta e ela se torna uma pessoa melhor – claro que tudo isso vem com um grande desejo de comer carne humana fresca. Nunca chamando Sheila propriamente de “zumbi”afinal segundo o vizinho nerd Eric (Skyler Gisondo), é um termo pejorativo – Santa Clarita Diet é uma grande ironia a perfeita vida americana nos subúrbios.

O criador da série – Victor Fresco (criador de Better Off Ted e roteirista de Name is Earl, ALF e Família Dinossauro) – aborda de forma engraçada e totalmente nonsense toda a saga de Sheila e Joel em busca de carne humana – que consiste em matar pessoas, tendo que lidar ironicamente com dois vizinhos policias e ao mesmo tempo dar a Abby uma boa educação. É claro que conciliar isso tudo não é fácil, e o roteiro ágil – recheado de sacadas e piadas muito rápidas (umas até difíceis de acompanhar) – consegue dosar bem cada momento – dando espaço até para a relação de Abby e seu vizinho Eric – um dos mais engraçados da produção.

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A sátira que envolve não só o modo de vida americano, acaba resvalando no poder feminino constante e bastante presente na série. Sheila devia estar morta, mas ela se torna mais viva a cada minuto. O seu novo estilo, sua nova “dieta”, acaba mudando a vida de todos ao seu redor. O poder feminino está nas pequenas atitudes, tanto nas dela, como nas de suas vizinhas – perceba que todos os homens da série são frouxos, e isso não é ruim. O gore também se faz presente – ironicamente eu assistia a série no jantar – o que não recomendo, pois Santa Clarita Diet usa e abusa do excesso de sangue e vísceras – a série é o que há de mais nojento na TV atualmente.

Outro ponto a favor e que está ligado ao nojo é a falta de apego aos personagens. Todos podem ser vítimas de Sheila, e muitos atores famosos fazem sua aparição e logo depois morrem. A falta de didatismo pode afastar alguns espectadores, ao mesmo tempo em que pode trazer alguns, já que o importante aqui é a saga do casal e todas as suas hilárias situações. Drew está incrível – solta, desbocada e sem noção nenhuma, a personagem vive sempre no limite – Liv faz uma filha que quer seguir os passos da mãe, quer ser livre, mas tem medo, a atriz acaba sendo natural e deve se destacar em futuras produções (principalmente pela cena de um ataque epilético, do qual o ser que escreve este texto não parou de rir). Skyler (Férias Frustradas 2015) tem o time cômico incrível, derivado de outras comédias – mas quem de fato rouba a cena é Tymothy – o ator que não costuma ser visto em comédias, tem as melhores piadas, reações e situações. Seu humor soa bastante natural e sua dinâmica e sinergia com Drew é um dos pontos altos da produção.

Talvez o maior deslize da produção seja abandonar a ausência de explicação em seus episódios finais, que parecem fora de rumo. Nunca abrindo mal da bela fotografia extremamente iluminada, que contrasta com a morte de sua protagonista, Santa Clarita Diet abandona toda a coesão que tinha em seus episódios iniciais – dirigidos coincidentemente por Ruben Fleischer (Zumbilândia). A busca por uma cura para Sheila e cada passo dado ao chegar mais perto dela, limita demais uma série que estava indo bem, apesar de não abandonar sua essência e terminar com um gancho maravilhoso – para um segunda temporada que já foi confirmada.

Com 10 episódios de aproximadamente 30 minutos cada, Santa Clarita Diet pode ser vista em uma só “sentada” – em uma rápida maratona. A honestíssima série da Netflix tem o intuito de fazer rir e consegue isso com perfeição, sem economizar no politicamente incorreto.