AODISSEIA
Séries

Samantha!, uma série de Emanuelle Araújo

Segundo ano aposta no talento de sua principal estrela e volta ainda melhor.


5 de junho de 2019 - 01:32 - Tiago Soares

Em seu primeiro ano, Samantha! ganhou o título de primeiro sitcom brasileira produzida pela Netflix, e muito mais do que isso, virou uma série de qualidade, homenageando não apenas a TV brasileira dos anos 80 e 90, mas seus ricos e excêntricos personagens. Neste segundo ano, a saga de Samantha ganha ares mais sérios, mas não menos inventivos, já que a protagonista tenta crescer e fazer o bem a todos os que estão à sua volta, não sabendo muito bem como. Tendo como viés principal o amadurecimento, a personagem tenta buscar significado além da casca da criança mimada e famosa que um dia foi.

Um filme de sua vida está sendo feito e segundo ela não será nada honesto com sua verdadeira história, cabe a ela impedir Bolota (Maurício Xavier) e Tico (Rodrigo Pandolfo) das formas mais estapafúrdias possíveis. Junto a isso está Dodói (Douglas Silva) tentando recuperar sua imagem ao lado de sua mãe (na ótima adição ao elenco de Zezeh Barbosa) e seus filhos passando por fases complicadas: Brandon (Cauã Gonçalves) em dúvida se é ou não adotado por ter nascido branco e Cindy (Sabrina Nonata) dando seus primeiros passos no feminismo e na vida amorosa. O Marcinho de Daniel Furlan continua excelente com frases saídas diretamente de fachadas de caminhão (ou de uma van), mas quem rouba a cena é a youtuber Laila de Lorena Comparato, que ganha merecido destaque, além das participações pontuais e virtuais de Gretchen (sim, ela mesma).

A busca pela mudança faz parte de todos os arcos deste segundo ano, a série de Felipe Braga deseja regredir (literalmente) ao passado de Samantha para entendê-la e mostrar ao mundo quem de fato ela é naquele mundo satírico e inconsequente. A direção dividida entre Luis Pinheiro (“Mulheres Alteradas”) e Olivia Guimarães (“Doce de Mãe”) caminha bem entre o cômico surreal e o drama crível realista. Há também um questionamento sobre cada atitude de Samantha, se tudo aquilo que faz é fruto de suas origens ou se ela realmente gosta de ser assim. Durante os 7 episódios suas verdadeiras motivações são postas à prova, o que não seria possível sem o talento absurdo de Emanuelle Araújo.

A série é da atriz e cantora, unindo carisma a um sentimento de afetuosidade, mesmo com suas ações por vezes fúteis. Emanuelle ocupa maior tempo de tela, e mesmo distante de sua talentosa família, consegue refletir uma mistura de humor inocente com politicamente incorreto. Existe uma briga de gerações e a maioria dos personagens já não estão mais em seus tempos áureos e devem entender que os mesmos mudaram e algumas lutas já não são aquelas de outrora.

É gratificante acompanhar o crescimento de Samantha, mesmo que metalinguístico, já que seus traumas são trabalhados na inclusão de uma peça de teatro, dirigida por Carmem Vecino (Alessandra Maestrini num participação bem humorada). O foco total na personagem título pode deixar as histórias secundárias (que também são muito interessantes) sem um norte, causando uma bagunça que só seria bem vista se fosse intencional. Esperamos que a Netflix continue investindo nesse mundo multicor e voador de Samantha!