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Séries

Crítica: Salém – 3ª Temporada

Último ano da série começa mal, se recupera, e termina em alto nível


7 de fevereiro de 2017 - 13:29 - Tiago Soares

Anunciada após o boom que foi a 3ª temporada de American Horror Story, intitulada Coven, a WGN America viu o potencial e o sucesso que o tema bruxas ainda causava na atualidade e resolveu apostar em Salém, série criada por Adam Simon (Evocando Espíritos) e Brannon Braga (24 Horas), baseada na perseguição conhecida como Bruxas de Salém do final do século XVII. A série trouxe personagens femininas fortes além da protagonista, e um texto atual sobre aceitação e o lugar da mulher na sociedade, além de uma direção de arte e figurino impecáveis para uma pequena emissora americana.

Tivemos uma boa primeira temporada, que serviu para nos introduzir nesse mundo, seguido de uma ótima segunda, para consolidar de vez a série. Infelizmente o terceiro ano começou mal, reduzida há apenas 10 episódios ao invés dos habituais 13, Salém anunciou seu cancelamento após o 5º episódio, o que pegou todos de surpresa. Com um fim anunciado, a série deu um belo salto a partir do seu 6º episódio, seguindo em alto nível até seu clímax surpreendente e agridoce, a crítica contém alguns spoilers então siga por sua conta e risco:

A desconstrução de Mary Sibley

A terceira temporada de Salém começou a segunda terminou, com um anúncio de um grande período de trevas a pequena cidade. Além dos franceses como ameaça terrena, o prenúncio do fim do mundo, e da vinda do Diabo (vivido pelo ótimo ator mirim Oliver Bell) e de seus irmãos, foi o que moveu essa última temporada, algo que ficou um pouco confuso nesse início, por não sabermos direito sua motivação, além da trama não mostrar nenhum avanço.

Além disso a volta de Tituba (Ashley Madekwe), pela segunda vez, mostrou o desgaste do texto, além da personagem já estar saturada e já ter cumprido sua missão, nesta primeira parte, apenas a chegada do irmão do Diabo (Samuel Roukin) trouxe novidades a narrativa e uma visão dos famosos “anjos caídos”, fazendo-nos conhecer o outro lado dessa história. Mercy Lewis (Elise Eberle) foi outra que apresentou uma pobreza e total falta de interesse, algo refletido até na atriz, que não parecia tão a vontade com o que era entregue, mas a mais prejudicada de todo esse primeiro arco foi Mary Sibley, a protagonista vivida pela excelente Janet Montgomery (que até entregou mais uma ótima atuação) sofreu demais, e todas as escolhas e atitudes da personagem se tornaram repetitivas.

Mary perdia os poderes, recuperava-os, era humilhada pelo Diabo e por seu irmão, conseguia dar a volta por cima, depois sofria novamente. A protagonista e favorita de muitos, viveu esse vai e volta durante toda a temporada, algo que melhorou muito na segunda parte, quando Adam Simon e Brannon Braga resolveram trabalhar com os outros personagens, que até então tinham esquecido. Aliás essa temporada poderia ser muito melhor, já que ambos dirigiram e escreveram a maioria dos episódios.

A ascensão de Anne Hale

Como dito, surpreendentemente após seu cancelamento, Salém melhora e a partir do 6º episódio e entrega uma das melhores sequências da série até então, sem deixar a peteca cair. Focando muito em Anne Hale (Tamzin Merchant) e no aumento de seu poder, a série brinca com a questão da inocência, afinal, quem é inocente em Salém? Em belos diálogos entre Isaac (Iddo Goldberg, que merecia um final mais digno) e Mercy, e outro de Cotton Mather (Seth Gabel) com o próprio Diabo, trouxeram a questão que permeou toda essa segunda parte: Apesar do personagem ser o mais mocinho possível, ele tem seus tons de cinza, e não é totalmente imune ao mal.

Isso pode ser refletido na figura de John Alden (Shane West) visto como herói na cidade de Salém, mas que já matou e torturou centenas de pessoas. Outra questão levantada é uma discussão sobre poder, se ele corrompe ou não, se ajuda a melhorar as coisas, algo que o Reverendo Hathorne (Jeremy Crutchley) fez questão de desmentir, com uma romance sem graça com Mercy, o personagem perdeu espaço nesse ano, enquanto o Barão Sebastian Marburg vivido por Joe Doyle ganhou uma bela jornada e um ótimo fim, recompensa por uma atuação que não deixou a desejar em sua obsessão por Mary Sibley.

Mary, que como dito anteriormente foi deixada de lado para que a história seguisse, o que se mostrou um grande acerto, já que temíamos pelo fim de Salém, trazendo tensão até o último episódio, nem a participação amarga de Marilyn Manson (que também canta a abertura da série) como o barbeiro Thomas, destruiu o final apoteótico. Final esse, dominado por Anne Hale. Em um jogo de cenas maravilhoso (que bela edição), a jovem bruxa mostra todo seu poder, finalizando todos os personagens e possíveis ameaças ao seu futuro reinado, poupando apenas o casal que iniciou toda a história da série, viver o restante das suas vidas.

Com uma bela direção de arte, um texto as vezes falho, mas que tem seus ápices e efeitos dignos de emissoras abertas dos EUA, Salém nos deixa órfãos de série de bruxas (eu particularmente não conheço mais nenhuma), mas felizmente conseguiu terminar bem, e se continuasse poderia se perder e entrar em desuso.