AODISSEIA
Filmes

Crítica: Rua Cloverfield, 10

8 de Abril de 2016 - 15:00 - Tiago Soares

Lost na tela do cinema.


rSe você foi/é um fã ferrenho da série Lost (2004/2010), com certeza amará este filme. Mas calma: se você não é fã da série de J.J Abrams, também vai gostar da maior parte dele. Uma jovem chamada Michelle sofre um grave acidente de carro e acorda no porão de um desconhecido. O homem, chamado Howard Stambler, diz ter salvado sua vida de um ataque químico que deixou o mundo inabitável e esse é o motivo pelo qual eles devem permanecer protegidos no local. Desconfiada da história, ela tenta descobrir um modo de se libertar, sob o risco de descobrir uma verdade muito mais perigosa do que seguir trancafiada no bunker.

É incrível como o filme funciona e nos prende com apenas 3 personagens principais. O roteiro, escrito por Josh Campbell, Matt Stuecken e revisado por Damien Chazelle (Whiplash), é algo de primeiro escalão, onde não há um diálogo ruim e todos fazem total sentido em meio aquele desespero, tanto da personagem principal como dos outros dois homens. No entanto, é importante saber o mínimo possível sobre a obra, nenhum spoiler ou detalhe sequer, senão a experiência estará toda perdida. Assim como fugíamos dos spoilers de Lost e hoje fugimos dos de Game of Thrones, aqui isso também é o correto a se fazer.

O clima de tensão a cada cena me fez lembrar a série, que a cada episódio vinha com uma revelação incrível e evolução de personagens. É claro que haviam os fillers, mas isso não se aplica nesta produção de quase 2 horas. Howard Stambler (John Goodman) é como John Locke (Terry O’Quinn), o homem que sempre acha que está correto. Howard consegue ser abusivo, duro, muitas vezes paranoico, mas também tem carisma, sabe ser dócil e usar as palavras. John Goodman faz o melhor papel de sua carreira, e isso é ótimo pra quem já é um ator excelente. Uma pena o filme ser lançado tão longe de premiações.

Michelle (Mary Elizabeth Winstead) é como Jack Shephard (Matthew Fox) desconfiada ao extremo dos atos de “bom moço” do homem misterioso. A personagem é uma mulher forte e muito inteligente que é colocada naquela situação onde não sabemos se todos agiriam da mesma forma, contando com uma atriz incrível que consegue passar carisma e empatia logo de cara. Já Emmett (John Gallagher Jr.) é como Hurley (Jorge Garcia), o “homem que acredita”, apenas isso. Ele acredita no ser humano, na história contada por Howard, no que Michelle quer fazer quando sair dali. O personagem de John Gallagher é o público e o ator faz um ótimo trabalho, sendo o coração dos três, o caipira que só quer a chance de ter algo melhor.

John Goodman as Henry; Mary Elizabeth Winstead as Michelle in 10 CLOVERFIELD LANE; by Paramount

A direção do filme é outro fator impressionante. A produção é de J.J. Abrams, figura carimbada em Hollywood, e um pouco de sua mente criativa está presente ali, mas o que Dan Trachtenberg conseguiu fazer em seu filme de estreia é espantoso. O diretor conseguiu deixar sua marca. Dentro do bunker, o filme consegue ser tenso e também divertido, sendo que Dan tem total controle sobre a produção que não se perde em idas e vindas de clima. Na tensão, o simples fato da queda de um parafuso é algo que faz o público parar, mas também as cenas de lazer despretensioso fazem o mesmo público relaxar e tudo vai se repetindo em cenas muito bem filmadas. É importante ressaltar que a trilha sonora de Bear McCreary tem papel crucial na trama, te puxando pra dentro do lugar e, mesmo nos momentos “felizes”, te fazendo voltar pra realidade.

O final do filme é algo completamente diferente da premissa original, parecendo muito mais com J.J. Temos a impressão de que acompanhamos um filme durante um tempo para no fim temos outro filme, que eu, particularmente, veria se tivesse mais 2 horas. A mudança de plot não é ruim, pelo contrário, se mantém no mesmo nível do filme inteiro, claro que com outras motivações e acredito que para compensar o orçamento de US$ 100 milhões.

Rua Cloverfield 10 não é uma continuação, um derivado ou um remake de Cloverfield – Monstro (2008), porque é muito mais que isso. O filme todo foi rodado em segredo, com um outro título, com seu primeiro trailer revelado apenas no Super Bowl em fevereiro e com data de estreia pro mês subsequente. Sem dúvida é a surpresa do ano e o bunker é a ilha. Assim como a produção de TV, você pode amar o final, odiar o mesmo ou simplesmente não entendê-lo.


Obs 1: O ator Bradley Cooper faz uma participação especial no filme.


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