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Depois de fazer um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos, José Padilha resolveu aceitar um desafio e estrear no cinema americano. O brasileiro consegue realizar um bom trabalho, mas ainda assim o remake do clássico de 1987 é sem sal, desnecessário e mediano.

Esse novo filme segue a mesma premissa do seu anterior, onde um policial honesto sofre um atentado, fica entre a vida e a morte e é transformado em um robô com consciência.

Acertadamente, Padilha e o roteirista Joshua Zetumer tentam afastar o remake do filme de Paul Verhoeven, remodelando quase completamente a história. Mas erram ao serem contraditórios, já que insistem em fazer, durante todo o filme referências ao original.

Essa contradição é um dos principais problemas do longa. Zetumer cria um leque de questões interessantes ligadas aos coadjuvantes, mas termina o filme sem decidir o que quer abordar. Um roteiro que se parece com Tropa de Elite, quando toca em várias feridas e abre vários pontos de discussão, como a corrupção, a ética cientifica e o poder da mídia, mas erra feio ao ser previsível e totalmente desprovido de tensão. É por isso que o filme – principalmente, o terceiro ato – fica sem profundidade e ritmo algum.

A situação do roteiro reflete a relação de Padilha com os executivos americanos. Ele teve uma liberdade invejável em diversos pontos, principalmente nas críticas, mas não foi responsável nem pelo roteiro, nem pelo corte final (este parece ser do americano que divide a edição com Daniel Rezende).

Pelo menos o diretor consegue driblar muito bem isso e realizar um pouco trabalho na direção. Algumas sequências, como o reencontro de Murphy com sua família e a cena onde ele é desmontado, são brilhantes.

Padilha também acerta na escolha de movimentos de câmera e no uso perfeito e pontual dos ótimos efeitos especiais. Infelizmente, a classificação 12 anos não deixou que José deixasse a violência estilizada de Tropa marcar sua presença no filme.

O diretor de fotografia Lula Carvalho usa a câmera de maneira perfeita e bem parecida com Tropa de Elite, mas erra quando dá muito valor a estética gamer das cenas com o Robocop. Elas são confusas e, em alguns momentos, anticlimáticas. Não é a toa que a melhor cena de ação é a primeira do filme, onde Murphy e Lewis enfrentam, de cara limpa, os bandidos, no estilo Capitão Nascimento.

A edição de Daniel Rezende, que também é brasileiro, também segue a tendência de ser mais rápida que os olhos do espectador, fazendo com que o público se perca nas cenas de ação.

A confusão e a falta de tensão na hora da quebradeira incomodam bastante, já que falta no filme um elemento que o original e o segundo Tropa de Elite têm de sobra: as cenas “Wooll”. Falta uma cena que prenda o público, que choque e que enlouqueça o mesmo.

O outro brasileiro da equipe técnica, Pedro Bromfman, é que mais se destaca. Sua trilha sonora funciona e ainda faz um uso excepcional da música tema original.

O elenco, como em quase todo blockbuster, não é muito exigido e se comporta bem, com destaque para os coadjuvantes e veteranos Gary Oldman (melhor personagem do filme), Samuel L. Jackson e Michael Keaton. O protagonista Joel Kinnaman também não decepciona e faz as cenas emocionantes funcionarem com um ótimo trabalho facial.

Apesar do bom trabalho de Padilha, Robocop é um só filme de origem completamente desnecessário. Pouco humor, criticas quase vazias e muitas explicações genéricas marcam a estreia do diretor em Hollywood.

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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  1. […] filme do nosso conterrâneo José Padilha é bom (critica aqui), mas não é o bastante para você se sair em uma roda de discussão nerd. A melhor versão do […]

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