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Humanidade traz Ricky Gervais de cara limpa e cheio de humor negro, destilando seu ódio sobre a estupidez da nossa sociedade.


Que a Netflix está disposta a bater o recorde de produções originais em 2018, todo mundo já sabe. O que eu preciso falar hoje é que os especiais de comédia – a maior de stand up – estão entre as apostas mais certeiras que o estúdio pode fazer, considerando o baixo valor de produção e a construção de parcerias fortes com artistas que certamente também ganham muito com tal relação.

É nesse contexto que o nosso querido serviço de streaming conseguiu operar um milagre: colocar Ricky Gervais (The Office, Derek e Uma Noite no Museu) de cara limpa em um palco, depois de sete anos, despejando seu ódio contra a humanidade em uma série absurda de piadas recheadas com aquele humor negro bem típico da Inglaterra. E, spoiler alert, o resultado não tinha como ser mais brilhante…

Apoiado no puro humor de observação do cotidiano, ele fala sobre câncer, religião, hipocrisia, riqueza, Twitter, testículos, paternidade e mais uma porrada de coisas com uma acidez que poucos teriam coragem de expressar. Isso me fez gargalhar algumas vezes, porém a parte mais impressionante fica reservada para maneira como Ricky Gervais constrói a piada.

Sob a direção do experiente John L. Spencer (Fist of Fun), ele conta suas histórias na velocidade exata (algumas ele estica até o limite, mas não perde o timing), mexe com a imaginação do espectador quando com um tipo de mímica e trabalha todas as frases como parte de uma argumentação. Observe como diversos trechos se encerram com o comediante falando um alto e sonoro “e é por isso que eu não faço isso”.

Mesmo sem cair num estilo de humor mais reflexivo, Ricky Gervais consegue expor sua opinião de maneira redonda, arrancar risadas altas com piadas que tinham tudo para serem consideradas erradas, fazer você refletir sobre certas reações dos seres humanos (principalmente no trecho sobre internet ou na longa piada de abertura que envolve as justificativas em torno de uma piada sobre uma certa transsexual famosa que deu o que falar no Globo de Ouro) e, acima de tudo, provar um ponto que definitivamente merece sua atenção: rir de coisas ruins não necessariamente o faz ser uma pessoa ruim; pelo contrário, rir de si mesmo ou das adversidades que cercam a sociedade é algo que pode nos tornar mais fortes.

Humanidade não é um show para todos – tanto eu quanto Gervais temos plena consciência disso, já que o humor negro e politicamente incorreto costuma incomodar -, mas isso não muda o fato de que todos deveriam tirar uma hora e meia de qualquer dia para ouvir o que esse homem tem para falar.

Ou principalmente como ele fala e constrói argumentos plausíveis sobre os assuntos mais pesados e controversos dessa sociedade tão estúpida e incomodada com qualquer coisa. É a união absurda e perfeita de suas habilidades como roteirista, crítico do mundo, comediante e ator em um show que passa voando e arranca gargalhadas que, no meu caso, não costumam ser comuns ao ver especiais desse tipo na televisão. Recomendo!


OBS 1: Só pra evitar qualquer dúvida, o texto deveria ser classificado com teatro. Como não temos essa categoria, escolhi filme pela duração de longa-metragem do especial.

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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