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Filmes

Critica: Reza a Lenda

29 de janeiro de 2016 - 12:49 - Flávio Pizzol

Um pequeno respiro para o cinema brasileiro

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O meu descontentamento com o cinema nacional já foi expresso em diversas criticas, principalmente por conta das fórmulas repetidas e dos gêneros estagnados em comédias, dramas de cunho social e ação policial. Entretanto sempre existem aquelas pessoas que decidem nadar contra essa maré e, mesmo com diversas falhas, ganha pontos por tentar fazer algo diferente dentro da nossa indústria.

Esse é o caso de Reza a Lenda, um thriller de ação, baseado em uma história em quadrinhos, que segue um grupo de motoqueiros guaiados pela fé que querem trazer a chuva de volta ao sertão. Mas para atingir seus objetivos, eles precisam encontrar uma santa misteriosa, lidar com um bruxo que cobra por suas respostas e enfrentar um latifundiário vilanesco que não tem pena de matar ninguém.

A premissa em si é bem intrigante e o trio de roteiristas, formado por Patrícia Andrade, Newton Cannito e pelo também diretor Homero Olivetto, consegue aproveitar bem a tensão presente no sertão em épocas sem chuva, a ligação que muitas pessoas tem com a religião e alguns aspectos sociais do país para construir uma trama de ação e suspense relativamente interessante. Mas, infelizmente, eles acabam desperdiçando boa parte desse conteúdo em um roteiro raso, confuso e bastante corrido.

Os diálogos que envolvem a importância da fé logo desaparecem para voltarem de uma hora para outra, os personagens são, em sua grande maioria, muito mal desenvolvidos e muitos momentos que tem potencial ou grande importância para a resolução da trama passam na mesma velocidade que as motos atravessam o sertão. Isso tira um pouco do impacto das cenas e, definitivamente, atrapalha um elenco que não utiliza o talento dos grandes nomes ou dos talentos em ascensão, como é o caso de Jesuíta Barbosa.

De fato, a maioria das atuações ficam restritas a caretas sem sentido, ciúmes mal desenvolvidos e a cara de paisagem da Luísa Arraes, que não convence nem nas cenas mais quentes. Mesmo assim, alguns personagens encontram um pequeno espaço para crescer no silêncio exagerado de Cauã Reymond, na falta de vaidade de Sophie Charlotte, na loucura de Júlio Andrade e na vilania caricata de Humberto Martins, que encontra sua eficiência em um ótimo monólogo no início do longa.

Com todas essas questões que acabam escorregando em alguns momentos, a missão de gerar o impacto visual e prender o público fica toda nas costas da boa direção de Homero Olivetto, acompanhado pela edição rápida, pela fotografia claramente inspirada em Mad Max e pela trilha sonora que mistura rock, pop e música eletrônica. É verdade que alguns efeitos especiais mais pesados ainda incomodam um pouco, mas Homero consegue mistura uma grande quantidade de referências que vão do western spaghetti aos filmes áridos de Gláuber Rocha para criar cenas de ação e suspense que satisfazem o público.

No final das contas, Reza a Lenda tem um roteiro extremamente raso, alguns atores talentosos desperdiçados e passa longe de ser um grande filme. Mas Olivetto mostra que o cinema nacional tem espaço para crescer, explorar gêneros diferentes e utilizar a violência gráfica para gerar resultados que fogem das fórmulas de sempre. O longa com certeza poderia ser muito melhor, mas isso não tira alguns do méritos do diretor nem muda o fato de que esse é mais um pequeno passo para um cinema brasileiro mais versátil e divertido.

OBS 1: Observem como a falta de dinheiro faz com que ele dirija algumas cenas do mesmo jeito que George Miller fez no primeiro Mad Max, lá em 1979.