AODISSEIA
Filmes

Retrato de uma Jovem em Chamas é a prova da sensatez feminina

Análise simbólica e desafiadora sobre o feminino


11 de janeiro de 2020 - 15:56 - Tiago Soares

Retrato de uma Jovem em Chamas é um estudo sobre como as mulheres seriam mais incríveis, se não tivessem os homens por perto.

A insanidade masculina é abordada em várias obras. “O Iluminado” e o recente “O Farol” mostra o que acontece com os homens quando postos em situações de isolamento. Tirando o fator sobrenatural de ambas as obras citadas, o que se vê é a loucura e o tédio que toma conta dessas figuras tão primitivas. De certa forma, “Retrato de Uma Jovem em Chamas”, longa da francesa Céline Sciamma, mostra o que acontece com as mulheres nas mesmas situações, e como elas se entregam as artes, sejam elas a pintura, o canto, a escultura e até mesma a arte de se conhecerem.

O filme conta a história de Marianne (Noémie Merlant), uma artista incumbida de fazer a pintura de casamento de Héloise (Adèle Haenel), uma jovem que acabou de sair do convento. Héloise não deseja o destino que a reserva e esconde-se para que ninguém consiga fazer o retrato. Fingindo-se de companheira de caminhadas, Marianne se aproxima calmamente da jovem, e aos poucos a conhece mais, pintando-a em segredo, até que algo mais forte do que elas começa a vir à tona.

Poético, a obra une delicadeza a uma certa inocência, já que apesar de jovens, aquelas mulheres descobrem um novo mundo a cada olhar e palavra dita. A direção as exalta, seja pelos corpos nus sem nenhuma cerimônia, esbanjando sensualidade, não a ponto de explorá-las sexualmente com imagens desnecessárias. Não há exageros, apenas planos belíssimos que exaltam não apenas a beleza, mas o que ambas sabem fazer com os talentos que desenvolvem.

As emoções parecem estar a flor da pele. A química é imediata, mas não há atropelos. A narrativa segue como se ambas quisessem pertencer uma a outra, ao mesmo tempo em que esperam o momento certo. Não é fácil ou simples, já que devido as circunstâncias e a época (a França do século 18), ambas não podem ficar juntas. O machismo parece engoli-las e trancafiá-las, querendo que aquelas mulheres demonstrem fraqueza, quando pelo contrário, o isolamento as torna mais fortes.

retrato de uma jovem em chamas

Apesar dos três finais involuntários e de perder força à medida em que passam, “Retrato de uma Jovem em Chamas” é uma pintura bela, repleta de desejos e de uma sensibilidade que vive numa linha tênue entre o real e o simbólico. A arte está para o feminino assim como a insanidade está para o masculino, não é a toa que que um sede a loucura e o outro ao ato de sentir.