AODISSEIA
Filmes

Crítica: Relatos Selvagens


27 de fevereiro de 2015 - 18:13 - Flávio Pizzol

388856O cinema argentino demonstrou um amadurecimento e um enriquecimento gigantesco nos últimos 10 anos, tendo, inclusive,vencido o Oscar com um dos meus filmes favoritos, O Segredo dos seus Olhos, em 2009. Enquanto a nossa indústria cinematográfica permanece estagnada e produzindo os mesmos filmes infinitas vezes, os nossos vizinhos trazem coisas novas, interessantes e que agradam o público mundialmente. É com imenso pesar que posso dizer que a Argentina é melhor do que o Brasil no futebol, na religião e no cinema.

Relatos Selvagens usa seis histórias completamente independentes entre si para demonstrar como qualquer pode perder o controle e levar alguma situação cotidiana, como uma ultrapassagem, uma viagem de avião ou um casamento, a um final intenso e violento.

A premissa do filme passou longe de me chamar atenção e – como acontece quase sempre – me arrependi de não assistir esse filme antes. Não esperava que um filme que fosse composto de curtas pudesse me impactar tanto, mas é exatamente o fato dele fugir do comum que criou uma parte desse impacto. Ao invés de tentar criar conexões forçadas que possivelmente prejudicariam a intensidade de seu filme, o roteirista e diretor Damían Szifrón usa sua experiências em série policiais para criar contos mais curtos que geram um grande impacto tanto separadamente, quanto quando são analisados como um todo.

Para começar, todos os “contos” tem suas particularidades, fazendo com que no final das contas Relatos Selvagens seja um dos mais abrangentes retratos sobre a violência cotidiana. Damían consegue fazer com que suas histórias tratem de assuntos diversos e toquem em temas obscuros, como a corrupção e a própria violência, de uma maneira simples e direta, usando um texto muito rápido e inteligente.

Ainda assim, acredito que era muito importante que todas as histórias fossem boas e isso não é um problema nesse caso. Claro que cada um pode gostar mais de uma ou de outra história, já que elas são independentes, entretanto aqui não existe aquilo de você só se interessar por um dos arcos e quase dormir enquanto a outra está se desenvolvendo. Damían tem o cuidado de fazer com que todas as histórias, mesmo tendo tons completamente diferentes, tenham surpresas, bons diálogos e uma grande dose de humor negro, além de fazer o público repensar as suas próprias ações.

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Eu, por exemplo, gostei mais da primeira, da terceira, da quarta e da última história, principalmente por elas contarem com um lado imprevisível que sempre me chamou a atenção. O primeiro “curta” é realmente pequeno e conta a história de um voo improvável. O terceiro mede as consequências de um simples xingamento no trânsito e tem uma violência brutal que me impressionou. Enquanto isso, o conto seguinte não é tão violento visualmente, mas retrata como ações em cadeia podem transformar a vida de alguém. O último conto, no entanto, é o mais estranho e surpreendente, já que nunca sabemos quem sofrerá com a violência dessa vez, mas deixa um final meio estranho para o filme.

Como essa última parte tem um final meio agridoce e um pouco similar ao filme Garota Exemplar, ele deixa o fim de todo esse estudo social um pouco amargo. A questão é que na maioria das histórias, Damían opta por cortar de maneira mais seca após os atos de selvageria, enquanto aqui ele cria uma extensão que cria uma enorme tensão, mas perde um pouco da força depois. Não que isso tire o mérito dessa ou de qualquer outra história, porque tudo faz sentido e é amarradinho, mas eu teria trocado a ordem dos curtas para anular esse efeito.

Fora isso, a direção de Szifrón é tão forte e interessante quanto o roteiro. Usando um jogo de câmeras interessante e alguns ângulos diferentes, ele mostra que sabe criar tensão, realizar reviravoltas de maneira simples e, principalmente, demonstrar a violência com uma força e estilização interessante. E o mais importante é que ele balanceia essa tensão e essa violência entre as histórias para que isso não tome conta do filme e se torne mais importante que o contexto geral que ele está trabalhando.

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Quanto ao elenco, acredito que todos conseguem sustentar bem suas partes e entregam o bom trabalho, mas quero aproveitar o momento para destacar Ricardo Darín, que, além de estrela do quarto conto, é o principal ator do cinema argentino atualmente. Ele é o protagonista de O Segredo dos seus olhos, que já disse ser um dos meus filmes favoritos, e também marca presença em outros ótimos longas de diversos gêneros, como Sétimo, Tese sobre um Homicídio, Um Conto Chinês e Abutres. Todos são filmes argentinos que me impressionaram e Darín é um dos motivos dessa boa impressão.

Aqui, mesmo dividindo o espaço com outros outros protagonistas e outras histórias, Darín também se destaca. É verdade que sua história deve ser a manos intensa visualmente, mas a maneira como ele constrói a raiva de seu personagem até a explosão é marcante e bem mais certeira do que dos outros. Sem querer tirar o mérito dos outros, mas Ricardo Darín é o cara.

Relatos Selvagens é um filme perfeito em todos seus aspectos e eu deveria ter visto ele bem antes. Ele consegue unir vários aspectos cinematográficos que me agradam de maneira simples e intensa, então, provavelmente, ele teria entrado nos melhores filmes de 2014 e até se tornado um dos meus favoritos ao Oscar de Filme Estrangeiro. Relatos Selvagens é um grande filme, que merece ser visto e fixado na sua mente para evitar futuros violentos e indesejáveis.


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