AODISSEIA
Filmes

Crítica: Raça

24 de junho de 2016 - 15:00 - Tiago Soares

Tão ágil e rápido quanto Jesse Owens.


307613.jpg-r_1280_720-f_jpg-q_x-xxyxxEm 2016, um ano olímpico, em que as Olimpíadas completam 80 anos, nada melhor que lançar Raça (Race, no original), cinebiografia de Jesse Owens, atleta negro americano que ganhou quatro medalhas de ouro nas Olimpíadas de Berlim, em 1936, superando corredores arianos em pleno regime nazista de Adolf Hitler. Venceu os 100m e 200m rasos, revezamento de 4x100m e salto em distância.

Além do lado esportivo, o filme busca retratar as variadas formas de preconceito, tanto na Alemanha nazista, como nos EUA, que surpreendentemente é mostrado com mais afinco. O diretor Stephen Hopkins opta pelo dinamismo, e as mais de 2 horas de duração do filme são praticamente imperceptíveis. James Cleveland Owens (Stephan James), é apresentado já correndo, prestes a entrar na universidade, com uma namorada e filha, querendo ser alguém e se casar, por isso não há cerimônia, nem enrolação no roteiro de Joe ShrapnelAnna Waterhouse.

Stephen James é carismático, e vai bem tanto em cenas que puxam mais para a comédia, tanto nas dramáticas. Ao seu lado o técnico Larry Snyder (Jason Sudeikis em seu primeiro papel dramático). Em cinebiografias a atuação é muito importante e Jason vai bem e até impressiona. Uma de suas filosofias envolve o silêncio interior e a concetração, já que Jesse e Dave Albritton (Eli Goree) são os negros da equipe e recebem xingamentos variados. A cena é boa, e a edição de som é conduzida de forma inteligente.

Mas a história de Jesse não é a única que conduz o filme. Na Alemanha mais especificamente, vemos a trajetória de Avery Brundage (Jeremy Irons envelhecido), que tenta impor algumas regras ao comitê olímpico germânico, para que aceitem atletas negros e judeus na competição. A política é tratada de forma rasa, mas é necessário para que possamos entender (não concordar) o outro lado. Lá, o lado nazista é encabeçado por Josef Goebbels (Barnaby Metschurat) como a figura autoritária por trás dos jogos e Leni Riefenstahl (Carice Van Houten, a Melisandre de Game of Thrones) responsável pela filmagem do evento e tornar os Jogos de 1936 uma forte campanha nazista.

Nos EUA, a decisão de Jesse sobre ir ou não as Olimpíadas, como forma de protesto, é importante. A discussão é necessária, já que os negros são discriminados tanto em seu território como na Alemanha, então: O que de fato vai mudar na vida de Jesse e dos negros americanos se ele ir ou se recusar? Uma linha de diálogo excelente resolve tudo. Infelizmente essa questão toma boa parte da produção e o ritmo cai um pouco, que volta quando os jogos finalmente começam.

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A exemplo de Ryan Coogler em Creed – Nascido Para Lutar, a opção de filmar todo o trajeto do atleta dos vestiários até o local da competição, em um incrível plano sequência (Que me fez pensar ele não vai cortar?), é necessária para mostrar toda a grandeza do estádio e o que está por vir.  Mais uma vez um grande trabalho de som é feito para mostrar a concentração de Jesse durante as suas 4 provas. A preparação física, a alternância de planos abertos e fechados no protagonista e no técnico, e a relação de amizade nada forçada com o concorrente alemão Lutz Long (David Kross) que ocorreu na realidade, fazem de Raça um grande filme.

Uma pena que a história real não tenha tido um desfecho tão bom assim, mostrado pelo diretor de forma sutil no fim do filme. A discussão sobre o racismo continua e é atual, infelizmente calando lendas do esporte e da vida.


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