AODISSEIA
Séries

Crítica: Punho de Ferro começa a encontrar seu caminho

A salvação de um herói destruído por sua primeira aparição

2 de outubro de 2018 - 11:11 - Flávio Pizzol

Convenhamos que a melhor de começar esse texto é ser o mais claro possível: a primeira temporada de Punho de Ferro passou longe de ser boa. A história era fraca, a narrativa parecia desorganizada, os personagens soavam pedintes em qualquer situação e as cenas de luta pareciam ter sido recortadas de um filme B de Bollywood. Por motivos óbvios, isso deixou Danny Rand – e sua insistente mania de falar que era o grande e imortal herói que a cidade precisava sem nunca demonstrar – em um status muito abaixo daquele que ele merecia.

Quase ninguém queria mais uma história do personagem, mas as mudanças nos bastidores, o resultado razoável de Os Defensores e uma ótima participação especial em Luke Cage me trouxeram até aqui com alguma esperança de ver os dilemas pessoais de Danny, a relação com Collen e os confrontos com o passado trazidos à galope por Davos resultarem em algo no mínimo decente. E agora, alguns dias aós a estreia, posso confirmar que a produção encontrou e começou a explorar os caminhos que podem levar ao sucesso, caso algumas últimas poças de lama sejam retiradas da trilha.

Porém, como já foi dito, algumas mudanças tiveram que tomar forma para que o Punho de Ferro saísse do fundo do poço e a principal delas envolve aquelas cenas de luta que jamais conseguiam convencer qualquer pessoa das habilidades adquiridas por Danny em seu complexo e árduo treinamento. Diante disso, a escolha de diretores com mais experiência em séries de ação e a tão comentada contratação de Clayton Barber (coordenador de dublês de Creed e Pantera Negra) surtiram o efeito desejado, evoluindo a pancadaria de lastimável para “bem interessante” graças aos movimentos de câmera fluídos, as coreografias mais arrojadas e a montagem certeira. Ainda não é a melhor coisa já vista na televisão, mas é uma evolução que merece ser notada pelo simples fato de dar peso às porradas e vender a tal credibilidade no talento marcial dos protagonistas.

Outra mudança necessária está relacionada ao desenvolvimento da trama durante a temporada. O primeiro ano sofreu com episódios desnecessários, ausência de magia e uma quantidade incontável de subtramas que, além de não acrescentar nada ao todo, só davam sono. Agora, a entrada de M. Raven Metzner (Falling Skies) no cargo de showrunner parece ter dado mais fôlego aos roteiros que surgiram mais bem organizados, ágeis e prontos para explorar a mitologia da maneira como o Punho de Ferro merece. Algumas historinhas paralelas continuam cumprindo o papel de fazer o espectador bufar de cansaço (não é, Ward?), mas a quantidade reduzida de episódios exige que os elementos importantes se cruzem regularmente e o desenrolar dos fatos seja mais conciso sem eliminar certas características que se tornaram fórmula nessa parceria entre Marvel e Netflix. Em outras palavras, ainda temos o começo lento, o clássico episódio voltado para o passado do vilão e outras coisas mais embaladas em um formato enxuto que poderiam fazer bem para outros heróis da casa.

Os fracos personagens apresentados no ano de estréia também começaram a ganhar mais corpo, incluindo desenvolvimento do background, momentos de destaque e relações frescas através das novas adições ao grupo. E, mesmo sem ser uma novidade de fato, o vilão muito bem interpretado por Sacha Dhawan (Sherlock) consegue se tornar um bom exemplo dessa ideia quando injeta mitologia na trama, cria momentos de destaque “inéditos” para os diversos nomes que cruzam seu caminho, ajuda no crescimento moral de Danny com sua visão de mundo e demonstra ter boa presença de cena nas cenas de ação. Até a mesma a sua motivação simplória ganha força quando um passado bastante rico é apresentado através de sequências que certamente faziam falta na primeira temporada.

Além dele, Mary Walker e a conhecida Misty Knight surgem como boas inclusões para Punho de Ferro. A primeira é uma mistura de vilã e aliada com outra dose de coisas mal resolvidas que se aproveita muito de uma atuação segura e surpreendentemente sem vaidade de Alice Eve (Além da Escuridão: Star Trek). É verdade que seu papel acaba entrando naquela zona de indecisão sobre quem seria o verdadeiro vilão, no entanto a compreensão ainda soa mais clara do que a função de Harold Meachum, mesmo com o desenvolvimento das personalidades parando no meio em prol de um gancho. Já Simone Missick (Wayward Pines) cumpre um papel objetivo, dá um gostinho da parceria com Collen nos quadrinhos e comprova que pode ser um bom elo de ligação entre as séries no lugar de Claire Temple.

No meio desse mesmo caminho, também é possível ver Joy e Ward evoluírem sem a figura do pai por perto e Collen assumir mais responsabilidade dentro da trama. Os primeiros ganham espaço para crescer, tem bons momentos e são necessários nas tramas paralelas (apesar do Ward ficar preso tempo demais nas reuniões sobre vício), enquanto a personagem interpretada por Jessica Henwick (Game of Thrones) começa a ganhar uma trama de fundo que pode fazer todo personagem chamar ela de discípula do Tentáculo. Entretanto, é justamente esse desenvolvimento que esclarece, de uma vez por todas, que o maior problema de Punho de Ferro continua sendo Danny Rand.

Finn Jones (Doctors) se esforça e até evolui bastante nas cenas de ação, mas isso não é suficiente quando se tem um protagonista tão fraco em mãos. Ele demora pra aprender com seus erros, só dá ideia que não funciona e soa tão desinteressante em seus dilemas mal desenvolvidos que a própria série desiste de ficar se arrastando e entrega o posto de protagonista nas mãos de Collen durante a segunda metade da temporada. O problema é que os mesmos roteiros que fizeram esse movimento valioso não sabem aproveitar o posto de coadjuvante para dar o mesmo tratamento de Joy e Ward, por exemplo, para o herói. Ao invés disso, eles mantém a postura vacilante e pouco decidida quando o colocam para liderar uma jornada em forma de epílogo que só está ali para deixar pontas soltas. A referência realmente é daquelas de encher os olhos de qualquer fã, mas no fundo só escancara sua falta de coragem, deixando um gostinho bem amargo no meio de uma temporada de Punho de Ferro que poderia ser muito acima da média.