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Séries

Crítica: Punho de Ferro – 1ª Temporada

O pior Punho de Ferro da história? Nem tanto.


18 de março de 2017 - 15:50 - Tiago Soares

A pergunta que abre esse texto, é dita em dado momento por Davos (Sacha Dhawan), melhor amigo de Danny Rand, o Punho de Ferro. A mesma dúvida pode ser plantada em nossas mentes antes de iniciar a série, afinal, o quarto e último defensor que ainda faltava ser apresentado e desenvolvido pela parceria Marvel/Netflix era o único a receber críticas tão negativas antes da estreia. Depois de uma maratona de 13 episódios devo dizer que não, você não está diante de algo ruim. Punho de Ferro tem suas qualidades, e me surpreende a repercussão negativa, já que os erros presentes na série, são os mesmos apresentados nas outras produções desta parceria.

Punho de Ferro é o único dos quatro defensores que eu não tinha um conhecimento pré estabelecido. Já tinha lido HQ’s de Demolidor, Jessica Jones e Luke Cage antes de suas respectivas séries, mas não sabia nada da história de Daniel Rand, um jovem dado como morto em um acidente de avião com seus pais que retorna a Nova York, 15 anos depois, em busca de assumir os negócios da família e retornar para o que chamava de lar. Só que Danny agora é o Punho de Ferro, um poderoso guerreiro, responsável por proteger a passagem para K’un-Lun – uma das 7 ilhas paraíso/celestiais – e destruir o Tentáculo.

A série talvez seja a que melhor desenvolva seu protagonista a longo prazo: Danny Rand é inocente, ingênuo e está sempre a procura do seu caminho. O questionamento constante se ele é ou não um bom punho de ferro é sempre citado, já que o protagonista parece perdido e sua mente cheia de traumas não o ajuda a estabelecer o seu objetivo. O espectador sabe o que Danny tem que fazer, mas ele mesmo não. Finn Jones não é um grande ator, mas a obra não pede tanto dele, que demonstra total conforto no papel de Rand, e competência no de Punho de Ferro. Quem realmente rouba a cena é a jovem Jessica Henwick como Colleen Wing, uma das filhas do dragão. A atriz, além de linda, se entrega totalmente ao personagem e tem as melhores cenas de luta.

Aliás, quem esperava cenas de luta superiores as outras séries desse universo vai se decepcionar um pouco no início, afinal estamos diante de um jovem que passou 15 anos treinando kung fu em uma ilha mística e se esperava mais dele. Apesar de mais coreografadas que em Demolidor, a ação é muito menos crua e mais plasticamente “bonita”, talvez pela ausência do elemento urbano, de não usar nada ao alcance para bater em alguém, e mais pelo uso da técnica. Assim como vimos a fotografia e iluminação vermelha em Demolidor, o uso do roxo em Jessica Jones e do amarelo em Luke Cage, aqui o verde é quem dá as caras,em pontuais cenas noturnas, quando o Iron Fist ainda é uma sombra para os inimigos. A série não é escura e nem se passa sempre a noite como as outras produções, tendo mais cenas diurnas.

Os vilões são bem desenvolvidos e convencem, principalmente a família Meachum. Os irmãos Ward (Tom Pelphrey) e Joy (Jessica Stroup) tem química e entregam uma atuação acima da média, com ele sendo mais expositivo em suas intenções (aliás a cara do ator é totalmente vilanesca). Já Joy fica mais na sugestão e pode ser utilizada em uma possível segunda temporada. Ambos são comandados por Harold (um excelente David Wenhamque é mais estrategista e prefere atuar nas sombras até mostrar a que veio, já perto do fim. O verdadeiro vilão da temporada é o Tentáculo, inicialmente comandado pela sempre foda Madame Gao (Wai Ching Ho), ambos apresentados lá em Demolidor. Se lá tudo fica apenas sugerido, em Punho de Ferro todo o sistema é pelo menos mostrado em sua totalidade. Conhecemos as cabeças, as intenções, as ligações e onde o Tentáculo atua. E a organização parece que ainda vai dar muito trabalho para os nossos Defensores.

Como dito anteriormente, dois eram os objetivos do nosso protagonista, reconquistar a família e os negócios e destruir o Tentáculo. Apesar de gastar bastante tempo no primeiro, o plot principal ganha vida após o episódio 4 –  dirigido por Miguel Sapochnik (Game of Thrones) – e segue numa crescente de reviravoltas e mistérios sobre o poder do personagem principal. É uma jornada de auto conhecimento, ao mesmo tempo em que o espectador aprende mais sobre esse mundo, afinal, as séries anteriores estavam focadas mais no lado urbano de Nova York. Aqui estamos diante inimigos e questões místicas, como a ressurreição, a cura, a vida e a morte de forma não convencional. Algo refletido até nos cenários, sempre com o pé em templos zen e objetos sagrados. Um pena essa pegada oriental, não ser refletida na trilha sonora, que prefere usar hip-hop em certos momentos e em outros uma mistura de Stranger Things e Demolidor, começando pela abertura que se parece bastante com as séries citadas, além de ser a menos inspirada das outras 4 produções.

O grande incomodo é na realidade o que vem afetando as séries Marvel/Netflix após a primeira temporada de Demolidor. Talvez assim como no cinema, que segue a famosa e bem sucedida “fórmula Marvel” – que se torna um “mal necessário”a vista do erros da concorrente direta – esse seja o problema também da TV. Se você notar, as séries tem inícios lentos, para desenvolver os personagens em questão, depois engrenam na metade, e aí voltam a cair novamente, com alguns episódios sendo raras exceções. A grande questão é: porque a história não vai direto ao ponto? Isso aconteceu em outras séries dessa parceria além de Iron Fist, mas porque só agora tais erros foram percebidos? A grande questão é saber diferenciar desenvolvimento de enrolação – preparar o terreno com cenas gratuitas – e o mais importante, avançar a história de maneira orgânica, sem perder o foco. Algo que acontece bastante aqui, já que somos sugados completamente para tramas corporativas que não acrescentam em nada.

Apesar de apresentar misticismo em sua produção, Punho de Ferro pode decepcionar alguns que queriam algo mais “fora da caixa”. O próprio punho do personagem brilha só quando extremamente necessário, e a referência ao uniforme original (que ele não usa nesta temporada) é sucinta, mas faz os verdadeiros fãs vibrarem. Uma das qualidades que todas as séries da Netflix possuem é o total descontrole da situação, começamos no ponto A, para chegar a um ponto B, e nesse processo perdemos pessoas, e personagens são completamente moldados para as situações que vem a seguir, fazendo o mundo deles cair totalmente. Punho de Ferro faz um caminho inverso, indo do Macro (Tentáculo, ameaça a Nova York, proteger K’un-Lun), pro Micro (salvar a família, os amigos, prova a inocência), algo que não desmerece a série, e a mudança é bem feita e bem vinda.

Além de Madame Gao, Jeri Hogarth (Carrie-Anne Moss) ajuda a fazer a conexão com as outras séries do universo, além da sempre maravilhosa Claire (Rosario Dawson), que tem uma aparição inicial quase tão boa como a que fez em Luke Cage (que, aliás, ainda manda cartas da prisão). As citações também estão presentes, como a do cara grande e verde, o homem da pele impenetrável, o demônio de Hell’s Kitchen, e sobra até para uma citação a amada/odiada Karen Page, além de Claire repetir o bordão de Luke “Sweet christmas” sempre que é conveniente. A ligação com a futura minissérie Defensores, se limita a essas referências, não preparando o terreno para o que virá, ou sugerindo se o Tentáculo voltará ou não na série dos heróis, mas surpreendentemente, muita coisas são sugeridas para uma possível segunda temporada do herói místico.

Apesar das boas cenas de ação (uma que lembra as fases de um jogo de luta com Danny lutando de maneira distinta em cada uma e outra com um lutador bêbado são minhas favoritas), Punho de Ferro ainda não mostra a que veio. Trazendo o personagem menos preparado doa quatro, a série foca muito mais em Danny Rand, do que no seu alter ego heroico. Com problemas na produção, abandono de showrunner e muitas especulações, Punho de Ferro não chega a ser ruim como foi pintado, mas passa a sensação de algo feita as pressas, em uma necessidade de apresentar o personagem, para que ele não chegue de supetão em Os Defensores. Enquanto as outras séries desse universo tem discussões sociais relevantes, Punho de Ferro conta a saga do bilionário herói em busca de retornar ao seu lugar. Não é de todo ruim, mas nós já vimos isso.