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Filmes

Crítica: Projeto Flórida

1 de março de 2018 - 08:00 - Flávio Pizzol

 

Projeto Flórida não é um filme tipicamente hollywoodiano. Ele tem cara de cinema independente, desenvolvimento de cinema independente e, acima de tudo, não se amarra a maior parte das convenções narrativas clássicas.

Ao contrário do que se espera, o roteiro de Projeto Flórida é basicamente uma colagem de acontecimentos que retratam a realidade das pessoas que vivem nos arredores dos parques da Disney. É claro que, lá no final, a colagem se transformam no conflito que vai resultar no clímax, mas a ideia de construir uma história amarrada não está no centro da proposta.

E, nesse caso, esse desenvolvimento experimental pode ser ser considerado o ponto mais forte do longa. Unindo o ponto de vista ingênuo de uma criança com a direção naturalista – quase documental – de Sean Baker, Projeto Flórida se transforma em um belíssimo conto sobre a infância, a amizade, a maternidade, as escolhas de cada um e, de forma levemente paradoxal, o sonho americano.

 

 

Observem que, por mais que o filme crie a ideia de que Moone tem a melhor infância que poderia ter, a Disney ainda é o lugar dos sonhos para onde elas fogem na última e impressionante sequência do filme.

E eu ainda preciso dizer que a construção livre do longa abre espaço para muitas interpretações. Esta é a minha, mas a sequência quase episódica de acontecimentos que podem ou não estar ligados diretamente aos protagonistas cria uma teia que pode ser ressignificada por cada um. Projeto Flórida não preenche todos os espaços, sem deixar margem para dúvidas, e isso é delicioso.

Só para dar um exemplo, a cena em que os brasileiros chegam no hotel possui um significado claro dentro da realidade de Moone (turistas que podem dar gorjetas), possui outro na realidade do gerente do hotel e possui outro na visão dos brasileiros. Nós, sendo brasileiros ou não, somos os responsáveis por escolher o caminho de interpretações que vamos seguir, enquanto as cenas falam muito.

 

 

Além disso, o filme ainda tem um elenco formidável para colocar tudo isso em prática. Entre uma porção de participações que surgem na hora graças ao imediatismo de Baker, Willem Dafoe e Brooklyn Prince dão shows à parte. O primeiro revela as várias camadas de um personagem calmo e carinhoso a cada passo em cena, enquanto a segunda explode como uma criança desbocada e genuína.

Em resumo, Projeto Flórida passa longe de ser uma experiência feita para o grande público, mas é um filme muito bonito, com algumas cenas que se transformariam em fotografias únicas, e intenso que ganha força em suas interpretações e reflexões. Uma experiência que merece sua atenção.