AODISSEIA
Filmes

Crítica: Presságios de um Crime


27 de fevereiro de 2016 - 11:00 - Flávio Pizzol

Visões de um futuro repetido


solace_poster_foreignOs suspenses policiais formam um dos maiores e mais ricos subgêneros do cinema mundial, podem ser misturado com várias temáticas, estilos visuais e línguas diferentes sem nenhum problema. A maior questão é lidar com um depois onde fica cada vez mais difícil fugir dos clichês e das repetições típicas de todos esses longas. Mesmo enxergando todo o seu futuro, Presságios de um Crime é um desses exemplos que não conseguem fugir do esquema básico e só chamam a atenção por um ou dois aspectos aleatórios.

Nesse caso, o principal deles é certamente a estréia internacional do diretor brasileiro Afonso Poyart, que foi convidado pelos produtores após o sucesso de 2 Coelhos. O seu desafio era tirar do papel essa misteriosa história de uma investigação policial que tem o objetivo de encontrar um serial killer que não deixa nenhuma pista nas cenas do crime. Cansado de ver o número de mortos aumentar sem nenhuma solução, um dos policiais decide pedir ajuda de uma espécie de vidente que vive isolado desde a morte da sua filha.

E é muito bom chegar aqui e falar que ele cumpriu essa missão com muito mais acertos do que erros, mesmo tendo que lidar com um mercado completamente diferente e um controle criativo obviamente menor. Com exceção de algumas cenas de ação que não conseguem se situar muito bem no espaço, a direção flui de maneira agradável, sabe como traduzir visualmente os poderes do protagonista e, principalmente, consegue explorar muito bem a relação entre alguns personagens chaves.

Surpreendentemente, Poyart ainda consegue trabalhar alguns movimentos de câmera, a edição rápida e alguns outros elementos visuais de uma forma bem próxima do seu filme de estréia no Brasil. Entretanto, ele acaba sendo limitado pelo estilo mais contido do longa e por um roteiro raso, inconsistente e completamente apoiado naquelas mesmas repetições que não mudam nem com a inclusão desses elementos “sobrenaturais”.

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O que os roteiristas Sean Bailey (em sua estréia) e Ted Griffin fazem no texto é simplesmente reciclar as mesmas ideias de outros longas desse subgênero, incluindo as mesmas táticas de investigação de sempre e a boa e velha história do policial aposentado que sempre precisa recurar a proposta antes de aparecer do nada na delegacia para ajudar. Como se isso não fosse o suficiente, eles ainda apostam em diálogos engessados, perdem boas chances de criar personagens convincentes e não conseguem estabelecer uma dinâmica aceitável para um poder que tem alcances diferentes dependendo da necessidade da história.

Outra coisa que pode ser considerado um problema é a quantidade absurdas de pequenas reviravoltas que preenchem a segunda metade do longa. Elas não funcionam em todas as ocasiões, fazem o tom do longa mudar constantemente,prejudicam a evolução de uma discussão filosófica realmente boa e, principalmente, reduzem o tão anunciado e especulado confronto entre o herói e o vilão a míseros 35 minutos. Com isso os roteiristas abrem mão da profundidade dos personagens e do único momento onde o roteiro realmente conseguiu me deixar interessado em saber quem estaria certo, prejudicando tanto o trabalho do diretor na reta final, quanto o do desperdiçado e ótimo elenco.

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Nesse último caso, os que mais perdem são certamente Anthony Hopkins e Colin Farrell que tem pouquíssimos momentos juntos para explorar dois personagens razoavelmente interessantes e acabam não tendo outra alternativa a não ser atuar no piloto automático. Já Jeffrey Dean Morgan e Abbie Cornish só precisam se preocupar em manter o ritmo e aproveitar os pequenos momentos de mais energia que ambos tem durante a projeção.

E são justamente esses momentos que podem ser aproveitados junto com o bom trabalho de Afonso Poyart, já que todo o resto se perde nesse roteiro cheio de problemas e repetições desnecessárias. É um filme razoável que consegue prender o público nos momentos em que investe no conteúdo das visões, mas poderia ser muito melhor (e quem sabe até inovador) se conseguisse trabalhar melhor as motivações dos personagens, os confrontos entre cada um deles e os respectivos aspectos morais que influenciaram tanto em tais ações.


OBS 1: Nas primeiras versões do roteiro, esse filme seria uma espécie de continuação de Seven, onde o personagem do Morgan Freeman revelaria ter poderes psíquicos. Você pode não gostar desse resultado apresentado, mas dê graças a Deus que o mestre David Fincher desaprovou essa bomba!


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