AODISSEIA
Séries

Crítica: Preacher finalmente encontrou sua fórmula do sucesso!

Terceira temporada mistura comédia, ação e loucuras da melhor forma possível.

28 de agosto de 2018 - 10:53 - Flávio Pizzol

Preacher está na lista de melhores histórias em quadrinhos de praticamente todo mundo que já leu o trabalho absurdo de Garth Ennis e Steve Dillon, logo toda a comoção e expectativa em torno de sua adaptação televisiva é justificável. A primeira temporada chegou a proposta de ser um prequel, mas afundou instantaneamente por não ter a energia avassaladora do material de origem. A segunda temporada estabeleceu o politicamente incorreto como elemento decisivo da trama e conseguiu se aproximar do tom original, porém escorregou em uma trama alongada demais. Agora, finalmente, o terceiro ano mostrou que é possível misturar ação, comédia e conspirações religiosas da maneira mais absurda e direta possível para entregar a melhor temporada da série que todos querem ver.

Um dos principais motivos desse ano funcionar tão bem está na escolha de uma história enxuta com objetivos e missões bem mais definidas que aquele “road movie” sem pé nem cabeça que tomou conta da temporada anterior. E, nesse caso, ela começa com a chegada de Jesse na fazenda da avó com o objetivo de salvar Tulip, confrontar o seu passado e recuperar o Genesis, e termina justamente quando todos esses pontos são amarrados. É claro que alguns pequenos plots fogem disso e até mesmo o Cassidy acaba ganhando uma subtrama própria e isolada, mas nenhuma delas quebra o ritmo da temporada e/ou acaba sem nenhuma conexão com a linha principal.

Essa escolha permite que a série ganhe mais foco para manter a organização e desenvolver personagens sem nenhum desespero, dando papéis bem claros para cada um e se aprofundando em parte deles quando necessário. Assim aumentamos a empatia por Jesse ao descobrimos sobre seu passado em flashbacks muito sólidos, entendemos o sofrimento de Tulip em relação a uma suposta maldição da sua família e mergulhamos de vez nos dilemas de Cassidy quando ele encontra os Les Enfants du Sang na citada trama que foge do núcleo principal. A diferença é que, ao contrário do acontecia nos anos anteriores, a própria consegue se desenvolver de maneira ágil, surpreendente e divertida, enquanto coloca mais camadas no vampiro mais drogado de New Orleans.

Com isso temos a tão esperada junção entre uma trama bem construída e uma coragem de fazer coisas bizarras que só Preacher possui. É um show extremamente violento onde baldes de sangue voando através do cenário que se completam com sequencias tão surtadas e idiotas que dão a volta até a perfeição e mais uma porção de piadas politicamente incorretas sobre religião. Eu duvido que você consiga me citar alguma outra série que faça o purgatório ser uma sitcom de humor negro, mostre Deus como uma pessoa escrota vestida de dálmata gigante e ainda crie uma guerra entre nazistas e seres do inferno para resolver um plot. E você pode até estar de boca aberta com esses exemplos, mas o fato é que o sucesso de Preacher passa pela liberdade de ser tão fora da casinha quanto seu material original.

Até porque é esse tipo de humor nonsense que prepara o terreno para algumas das cenas de ação mais interessantes e bem dirigidas que a televisão produziu nos últimos anos. Os movimentos de câmera propostos por todos os envolvidos (principalmente nas lutas corpo a corpo) são fluídos e inovadores, o uso da câmera lenta é muito bem feito, o gore consegue chocar o suficiente para provar sua necessidade, a montagem dita o ritmo com perfeição e a trilha sonora pesada finaliza como uma boa cereja no bolo. É uma combinação que mistura medidas exatas de exagero e diversão, permitindo que todos os episódios do terceiro ano de Preacher tenham pelo menos um momento que prenda o espectador e deixe aquele gostinho de que a jornada até ali valeu a pena.

Aí você ainda junta tudo isso com um elenco carismático e cada vez mais entrosado entre si e com os personagens. Eles aceitam a canastrice que é ter um vilão cuja a careca parece um pinto e isso faz com que a experiência de assisti-los juntos seja bastante prazerosa. Dentro desses aspecto, Dominic Cooper (Mamma Mia! Lá Vamos Nós de Novo), Joseph Gilgun (Conexão Escobar) e Ruth Negga (Agents of S.H.I.E.L.D.) dão um show a parte quando a série troca o foco na busca por Deus pela amizade do trio principal, enquanto Ian Colletti (Windsor), Graham McTavish (Outlander), Pip Torrens (O Destino de uma Nação), Noah Taylor (Arranha-Céu: Coragem Sem Limite), Colin Cunningham (Elektra), Betty Buckley (Fragmentado), Jeremy Childs (Nashville: No Ritmo da Fama), Adam Croasdell (Batman Ninja) e um irreconhecível Jason Douglas (The Walking Dead) os cercam com coadjuvantes absurdos que incluem coisas como Cara de Cu, Hitler, uma vó sugadora de almas e até uma versão bombada de Satã.

O resultado dessa loucura organizada é uma série que encontrou seu rumo e entendeu como aproveitar todo o seu potencial dentro de um único episódio ou temporada. Uma série que conseguiu eliminar o principal problema narrativo (o excesso de tramas) da temporada anterior e juntar com a pegada dos quadrinhos para criar a sua fórmula do sucesso. Uma série surtada, divertida e muito bem produzida que pode carregar o nome Preacher para as nuvens, caso mantenha esses ritmo no já confirmado quarto ano.  E se esse é o único desafio de Seth Rogen e companhia devem enfrentar como criadores, eu prometo rezar por eles…