AODISSEIA
Séries

Pose é a prova de que existe otimismo no mundo LGBTQ+

Série de sucesso retorna com uma visão mais positiva, sem abandonar os dramas!


10 de setembro de 2019 - 17:59 - Tiago Soares

Indicado ao Emmy 2019, Pose retorna esperançosa em seu segundo ano, sem esquecer da importância de sua temática e de suas lutas.

Recentemente conversava com um amigo sobre a onda de filmes LGBTQ+ que ganhava cada vez mais espaço. A medida que essa onda surgia, quantidade era inversamente proporcional a qualidade, visto que muitas obras bem abaixo da média surgiam e eram mascaradas pela sua “importância”. Outro ponto mencionado foi a necessidade de contar histórias de sofrimento, com finais melancólicos e recheado de cargas emocionais que levam o público ao limite. Onde estão os filmes de ação, comédia, terror e afins protagonizadas por homens, mulheres e transexuais gays? Será que existe alguma obra que valoriza a história acima da sexualidade?

Pose parece surgir para mudar isso. Mesmo abordando o surto de Aids que assolou boa parte dos EUA em sua primeira temporada, a segunda começa e termina com muito mais otimismo. Após um salto temporal (convenientemente realizado para pegar o lançamento da música Vogue de Madonna), o segundo ano continua abordando a importância da representatividade, seja na área de trabalho com Angel (Indya Moore) enfrentando transfobia como modelo, a Blanka (Mj Rodriguez) tentando impulsionar seu salão e esbarrando em Frederica Norman (Patti LuPone).

Elektra (Dominique Jackson) por sua vez caminha com as próprias pernas. Sempre independente, a co-protagonista monta sua própria casa para voltar aos tempos de glória. Quando a personalidade de vilã ousa retornar, ela demonstra todo o amadurecimento visto no ano anterior. Aliás, há um destaque maior para as mulheres aqui, sempre seguras de si, enfrentando dificuldades com mais facilidade, devido a bagagem que adquiriram com o tempo. Ao mesmo tempo joga um shade na Academia de Televisão, já que nenhuma das 5 protagonistas femininas de Pose foram indicadas ao Emmy, mesmo com os inúmeros elogios da crítica especializada.

Para um série de que trabalha com mais de 140 profissionais transexuais, Pose também destaca os homens. Pray Tell ganha um episódio lindo para chamar de seu, mostrando que Billy Potter é uma força da natureza. O núcleo mais fraco é o de Damon (Ryan Jamaal Swain), que mesmo com a presença da música de Madonna e sua importância para a época, possui a trama menos chamativa, principalmente quando engata seu romance forçado com Ricky (Dyllon Burnside). Outro romance sem química inicialmente é o de Angel com Lil Papi. Mas a medida em que avança, o roteiro e a atuação de Angel Bismark Curiel melhoram, fazendo com que torçamos pelo casal.

pose

Candy Forever

A produção de Ryan Murphy, Brad Falchuk e Steven Canals volta esperançosa, mesmo sabendo de sua importância em abordar assuntos sérios. Fazendo isso com extremo respeito, a obra homenageia os vários mortos e injustiçados seja pelo abandono ou pela violência daqueles que se acham melhores e mais fortes. Candy (Angelica Ross) por exemplo, é uma personagem que tem um futuro inesperado, mas condizente. Seu episódio em especial é uma das coisas mais lindas da TV em 2019, simbólico, poderoso, tão ousado quanto sua personalidade.

A maternidade mesmo que não-oficial continua dando as caras. Blanka por exemplo, morre de medo de “abandonar” os filhos, os deixando sem um rumo a qual seguir. A união entre a comunidade LGBT (que na época nem tinha esse nome), serve para destruir toda espécie de negligência e ignorância do Estado. E por último não menos importante: identidade.  A temporada começa com a luta para não enterrar um amigo como indigente e termina com novas crianças em busca de um lugar no mundo, em busca da própria identidade.

Em tempos de censura e preconceito disfarçados de opinião, Pose se faz mais do que uma série, é praticamente uma necessidade. Otimismo é o que precisamos num mundo bastante afetado pelo intolerância, sem deixar de lado nossas lutas diárias por mais aceitação.