AODISSEIA
Filmes

Crítica: Pororoca

A dor, culpa e impotência tem o poder de destruir qualquer coisa

3 de março de 2018 - 21:15 - Flávio Pizzol

Por mais que o título sugira o contrário, Pororoca não uma produção brasileira e muito menos uma reportagem do Globo Repórter sobre um dos maiores espetáculos naturais do planeta. Estamos falando de um longa romeno – país dono de uma escola cinematográfica repleta de grandes filmes – que se apropria desta palavra em tupi guarani que define o efeito reativo (e avassalador para seu entorno) que toma forma quando o Rio Amazonas encontra o mar. Aqui tal encontro é representado pelo desaparecimento de uma criança, enquanto as consequências se transformam nessa onda que destrói tudo que passa na sua frente.

A trama – escrita e dirigida por Constantin Popescu (Principles of Life) – acompanha um pai normal, chamado Tudor, que trabalha, convive relativamente bem com sua esposa e leva os filhos para brincar no parque todo final de semana. Essa vida tranquila desmorona quando sua filha desaparece, sob seus cuidados, sem deixar nenhuma pista. A polícia não consegue solucionar o caso, a família começa a se autodestruir e o desespero pode fazer o protagonista tomar medidas drásticas.

A questão é que o filme pode não ser exatamente o que parece: apesar das aparências expostas nessa e em qualquer sinopse encontrada na internet, Pororoca não tem nenhuma vontade de discutir o crime que coloca a narrativa em movimento. Popescu deixa isso explicito no seu texto, mas a direção faz questão de reforçar as escolhas temáticas da obra ao filmar o fatídico dia do desaparecimento com um distanciamento bem particular, dando total atenção ao pai e a uma briga aleatória (ou não) por causa de um cachorro. A câmera só abandona seus planos estáticos e abertos para se movimentar com fervor quando o objetivo é acompanhar de perto o desespero do protagonista, esclarecendo ainda mais que o foco do caso está apontado para ele.

Toda essa atenção faz com que o interprete do pai, Bogdan Dumitrache (Sieranevada), seja obrigado a roubar os holofotes e brilhar, carregando nos ombros toda a dor, culpa e sofrimento que cercam o desparecimento de sua pequena Maria. Da mesma forma que Em Pedaços precisava da figura de Diane Kruger, Pororoca também depende enormemente das reações de seu protagonista ao contexto com a diferença de que seus comportamentos tendem a ser muito mais sutis. Seu personagem internaliza a maior parte dos sentimentos, acumulando-os antes de liberar tudo em explosões emocionais de grande impacto.

Por outro lado, a esposa construída por Iulia Lumânare (Jogos Letais) funciona justamente como o contraponto que grita e destrói a casa quando precisa demonstrar sua tristeza. Ela acaba perdendo espaço de tela com o desenvolvimento de uma história que lança os holofotes sobre seu marido, mas ambos os trabalhos teriam força para carregar tramas distintas. Em outras palavras, assim como acompanhamos o ponto de Tudor, poderíamos facilmente acompanhar as reações quase opostas de Cristina. Mesmo fazendo uma escolha que funciona dentro da proposta, o roteiro certamente merece pontos por conseguir construir sua trama com tamanha eficiência.

No entanto, o fato de Popescu concentrar sua atenções no drama que acompanha essa família após o desaparecimento da garotinha não significa que o mistério seja deixado de lado. Na verdade, a disposição de peças desse quebra-cabeça seguida pela caçada ao possível culpado é uma das coisas que movimentam a trama de maneira suficiente quando esta, na metade do segundo ato, chega muito perto de ficar presa no marasmo criado pelos planos longos e solitários que acompanham o dia-a-dia de Tudor. A única diferença é que, mesmo atuando como força-motriz dentro do roteiro, a resolução comprovada em si não possui nenhuma função.

Tudo não passa de um mero artifício que mexe com a mente e conduz o protagonista até um clímax completamente insano. E, por mais que o longa mantenha diversas semelhanças temáticas e narrativas com Os Suspeitos, o já citado Em Pedaços e outras obras-primas do cinema, nada – eu disse nada – consegue preparar o espectador para o plano-sequência doloroso e violento (um dos mais pesados que encarei na minha vida) que encerra a película com chave de ouro. Uma conclusão que salva o longa de outros pequenos problemas e coloca Pororoca nessa bela lista de filmes poderosos que se encerram com um daqueles finais que chocam, tiram o fôlego e deixam o espectador andando como um zumbi pelas ruas de Cartagena.