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Parasita: O melhor filme de 2019?

Novo filme de Bong Joon-ho tem metáforas pontuais sobre privilégios.


7 de novembro de 2019 - 13:43 - Tiago Soares

Bong Joon-ho usa do seu cinema social mais uma vez e Parasita é um exemplo metafórico sobre privilégios, além de um dos melhores filmes de 2019.


O diretor sul-coreano gosta de mexer com nossa cabeça e nos fazer pensar através de um prisma social, cercado de privilégios. Seja você rico ou pobre, Bong Joon-ho vai lhe causar algum sentimento através de suas histórias, mostrando que, mesmo se você estiver em uma fase ruim da vida, sempre existirá alguém em momentos piores ou melhores que você. Em “Parasita”, o cineasta utiliza de metáforas, saindo da sutileza diversas vezes para ser o mais claro possível.

Na história, toda a família de Ki-taek (Song Kang-ho) está desempregada e vivendo sob condições precárias. Influenciado pelo amigo, seu filho Ki-Woo (Woo-sik Choi) começa a dar aulas de inglês para a filha mais velha de uma família rica. Aos poucos pai, mãe, filho e filha vão adentrando a casa, e a medida que se aproveitam daquela vida de regalias, terão que pagar um preço caro pelos segredos. O cineasta sul-coreano esbanja sensibilidade nos belíssimos planos e apresenta cada membro da família Kim como um indivíduo com personalidade, mas que ao mesmo tempo, depende do outro para sobreviver.

É óbvio que a luta de classes é o principal ponto aqui, mas entre as tantas camadas da obra, pode-se enxergar uma união, por vezes involuntária entre aqueles que sofrem e querem revidar e aqueles que sofrem e não sabem disso. Qualquer migalha jogada a mesa é um banquete. Existe a crítica ao sistema, mas também há humor, um humor desconfortável, que serve para aliviar cenas pesadas como a da enchente e a do cheiro, um dos principais pontos de virada do roteiro.

Simbolicamente, também existe alguém abaixo de nós e esse alguém nem sempre se encontra lúcido. Mudando completamente sua estrutura após uma hora de produção, Bong Joon-ho faz um filme com uma trama simples que se torna complexa com o tempo, mas, ainda assim, de fácil compreensão. O diretor caminha entre a lentidão e a intensidade para não entregar nada de mão beijada. O paralelo feito entre duas classes tão diferentes entre si que habitam o mesmo espaço, por vezes não condena e nem julga as respectivas atitudes.

parasita

Quem é você quando está sozinho e à vontade? “Parasita” está interessado nesta questão no mais íntimo do ser humano. A obra não economiza em sua narrativa repleta de viradas surreais do roteiro, trazendo um suspense charmoso e imprevisível. Multifacetado, o espectador se sente manipulado. O sentimento de revolta se une a busca pela dignidade que aqueles personagens parecem perder. As peças se encaixam, a realidade bate a porta e só existe o ódio e o desprezo.

Aqui, ser e ter, possuir e existir, estão interligados. Para alguns pode existir o bem e o mal, para outros apenas o cinza. A família Kim e a família Park vivem em uma constante guerra silenciosa. Um abismo os separa, até que uma grande ponte os aproxima para a batalha. Apesar do protagonismo masculino, as mulheres tomam a frente e ditam as regras desse jogo maquiavélico. A matriarca Park Yeon-kyo (Yeo-jeong Jo) e sua filha Ki-jung (So-dam Park) são a inteligência e a lucidez.

Vencedor da Palma de Ouro em Cannes e pré-selecionado ao Oscar 2020 como representante da Coreia do Sul, “Parasita” é diferente pela forma com que aborda as relações. A visão do rico bonzinho e benfeitor é posta a prova. A classe mais abastada é tão cega e se fecha tanto, que não enxerga obviedades a um palmo de distância. O filme escancara as mais profundas mazelas de um sistema que deu certo apenas para alguns, enquanto grande parte vive a margem da sociedade. Será que existe alguém vendo o piscar de luzes desenfreado no andar de cima?

 

*Filme visto na 43ª Mostra de São Paulo