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O representante da Argélia no Oscar 2020, “Papicha” pinta o retrato de heroínas que têm a juventude sonhadora dilacerada pela violência da realidade


Liberdade. Algo tão relativo pode se tornar fundamental quando nos deparamos com outra realidade. Assim, “Papicha” está disposto a contar não só a historia de Nedjma, mas a de várias mulheres que passam pelo crivo do tradicionalismo religioso e de costumes cada dia mais retrógrados.

No filme, acompanhamos a jovem apelidada de “papicha” que cursa uma universidade (algo bastante raro na época) e sonha em ser estilista. Enfrentando os radicais, já que o país passa por uma forte guerra civil, a menina deseja apenas levar uma vida normal, vendendo suas peças e organizando desfiles.

A escolha da estreante Mounia Meddour para dirigir esta obra não foi em vão, haja vista que só uma mulher é capaz de sentir a dor que aquelas moças sentiram ao ter sua liberdade e até familiares arrancados delas.

Emocionante, o longa tem sua força na atuação de Lyna Khoudri e seu grupo, que na mesma medida demonstram momentos de felicidade, agonia e sofrimento. Nem o texto por vezes expositivo de Mounia – em parceria com Fadette Drouard – atrapalha o desenvolvimento.

Dando com uma mão e retirando com a outra, a história é agridoce. Há esperança, mas também injustiça. O conservadorismo hipócrita (até de mulheres engolidas pelo sistema), vai de encontro a inocência e fragilidade daquelas jovens, que em nenhum momento deixam de ser fortes.

Com cortes rápidos e bastante planos fechados, a fotografia fica mais escurecida com o tempo, perdendo a cor em um recurso simples porém bastante eficiente. O cuidado para não menosprezar a religião é bastante eficaz, já que mostra seguidores que não impõem seus valores a força.

“Papicha” é um filme sobre luta contra o extremismo, obscurantismo e o sempre prejudicial fanatismo religioso. A resistência existe, a sororidade ultrapassa a insubordinação e a opressão.

A cena final nos deixa tensos, praticamente grudados na poltrona, já que é muito fácil amar e se importar com aquelas garotas. Proibido na Argélia, ironicamente, o filme é o representante do país no Oscar 2020.

*Filme visto na 43ª Mostra de São Paulo

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Papicha

8.5

Tiago Cinéfilo
Estudante de Comunicação e editor deste site. Criador, podcaster e editor do "Eu Não Acredito em Nada", o podcast de terror da Odisseia.

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