AODISSEIA
Filmes

Crítica: Pantera Negra

WAKANDA FOREVER!!!

16 de Fevereiro de 2018 - 11:23 - Tiago Soares

Ultimamente, muito se discute a importância dos filmes de super-heróis, não apenas em termos de mercado – como na recente declaração da diretora e atriz Jodie Fosterrebatida por James Gunn – mas também em questão de profundidade e na mensagem que deseja transmitir. O subgênero (que para mim já um gênero) serve apenas para entreter, ou deseja trazer algo mais que isso?

O primeiro Superman, o primeiro Batman e até Blade, pincelaram questões sociais e raciais, mas tudo ainda ficava meio que na superfície em benefício do entretenimento. Os X-Men no início dos anos 2000 começaram a trazer relevância – não apenas por ter um diretor assumidamente gay e tratar de rejeição como nenhuma outra produção – o filme trazia um tensão política, principalmente no segundo – pós 11 de setembro.

A trilogia Batman de Nolan, pegou a crise financeira americana e os atos de desespero de grande parte da população para trazer thrillers obscuros sobre a importância de se ter um herói na sociedade. O aumento da criminalidade e individualismo foram assuntos discutidos e abordados na trilogia, mas, um filme inteiro ancorado em questões sérias e relevantes, daria certo? Após ver Pantera Negra, a resposta é sim.

Após a morte do seu pai T’Chaka em Capitão América – Guerra Civil, T’Challa é o rei de Wakanda. Uma nação soberana, nunca colonizada e que vive escondida para preservar seus bens, armas e riquezas. Após um incidente envolvendo Ulysses Klaue (apresentado em Vingadores: Era de Ultron) e Erik Killmonger (vilão clássico das HQ’s), cabe ao Pantera Negra decidir se fica em Wakanda para governar – já que a nação precisa de um rei – ou se vai em busca do homem que tanto prejudicou a ele e seu pai.

A simples sinopse, resume um filme comum de super-heróis, mas Pantera Negra vai além disso, ao começar pelo visual espetacular. A primeira parte do filme não sai de Wakanda e somos introduzidos a um mundo novo no Universo Marvel. O trabalho de Ruth E. Carter respeita e reverencia a cultura negra africana e os detalhes são impressionantes.

Muito além do visual, o roteiro de Ryan Coogler e Joe Robert Cole introduz a linguagem africana nos diálogos, e o filme possui uma identidade própria. Estamos diante de um dos filmes mais privilegiados da Marvel, o cuidado é absurdo. Tudo isso torna Pantera Negra um filme soberbo e seguro de si. As cenas de ação são espetaculares e Ryan Coogler repete o que fez em Creed: poucos cortes e muitos movimentos contínuos de câmera, colocando o espectador dentro das lutas.

A fidelidade aos quadrinhos é algo a se exaltar. Todo o processo até T’Challa se tornar o rei e assumir o posto de Pantera Negra é extraído diretamente dos quadrinhos. A junção orgânica entre tecnologia e costumes antigos, com direito a grafites nas paredes, fazem de Pantera Negra um filme resolvido tecnicamente, além de magnífico.

A maior discussão da trama está em se Wakanda deve ou não ajudar os menos favorecidos, ou continuar como uma nação escondida, o que faz o filme ser extremamente político. Pantera Negra não é o primeiro filme a tratar de assuntos como racismo, xenofobia, criminalidade e discriminação, mas é o primeiro a assumir um lado.

A linha tênue entre ajudar os que precisam e colocar armas nas mãos daqueles que precisam é histórica, e não deixa de ser atual. Estamos vivendo uma era de extremos, polarizada, capitalismo x socialismo, refugiados x “se deixarmos eles entrarem, os problemas deles também vão entrar”. Tudo isso torna a trama de Pantera Negra madura e bem próxima do que vemos em Capitão América: Soldado Invernal (meu filme favorito do estúdio).

O elenco do filme é fora de série. Trazendo nomes renomados ao mesmo tempo que alguns não tão conhecidos do grande público, a começar pelo protagonista Chadwick Boseman. Seu T’Challa é um rei sábio, mas dotado de dúvidas sobre como governar, o que faz com que a cena e diálogo ao lado de seu pai, seja uma das mais bonitas do filme.

Ao seu lado estão mulheres incríveis. As Dora Milajes comandadas por Okoye (Danai Gurira, a Michonne de The Walking Dead), uma general ferrenha e patriota, que serve ao seu país com fervor, além de possuir um carisma incrível e as melhores cenas de luta. A Nakia de Lupita Nyong’o (12 Anos de Escravidão) vai além do interesse amoroso. Ela move a trama do filme e trabalha como  voz da consciência do grupo.

O lado impulsivo está em Shuri (Letitia Wright), irmã de T’Challa, honrosa e guerreira como ele, além de trazer uma leveza à uma trama que se torna carregada as vezes. Junto a Everett Ross (Martin Freeman) são parte do alívio cômico do filme. Aliás, as mulheres têm um tempo de tela e importância páreo e muitas vezes maior do que o protagonista. Ramonda, mãe de T’Challa vivida por Angela Bassett e Zuri, uma espécie de guia espiritual vivido por Forest Whitaker, cumprem a função de conselheiros do rei, enquanto que W’Kabi de Daniel Kaluuya está mais para parceiro e companheiro de guerra.

Um filme de um herói solo com mais de 2 horas é raro hoje em dia, restando assim tempo suficiente para desenvolver personagens e se afeiçoar a eles, e é exatamente isso que acontece com o vilão de Michael B. Jordan. Erik Killmonger é sem dúvida um dos melhores vilões do Universo Marvel no cinema – algo raro – já que grande parte do calcanhar de Aquiles dos filmes do estúdio, são os vilões.

Apresentando motivações genuínas e vindo diretamente do passado de maneira nada forçada, Erik é um soldado ferido. Um ser, fruto do abandono e da omissão de Wakanda. Algo que poderia ser evitado se não fosse o egoísmo da nação. Ele abre discussões sobre aquilo que poderia ser, sobre seguir tradições. Louvar os ancestrais, respeitá-los, mas ao mesmo tempo sentir que o mundo está mudando, e as visões de outrora já não interessam mais.

Tradições, paternidade, erros do passado refletidos no futuro. Pantera Negra traz tudo isso à tona, mas também traz representatividade. Numa sala de cinema, onde pela primeira vez, vejo a maioria negra – com seus black powers, turbantes, chapéus exóticos e sorrisos – estamos diante de um filme importante que começou a fazer história muito antes de estrear.

Assuntos diversos que serão debatidos por muito tempo, fazem com que Pantera Negra não seja um filme esquecível. A trilha de Ludwig Göransson com a participação e consultoria de Kendrick Lamar traz um som genuinamente africano e a vontade é sair cruzando o braços e gritando: WAKANDA FOREVER!!!


ObsSterling K. Brown este ator maravilhoso, não foi citado na crítica para evitar spoilers.

Obs 2: O filme possui 2 cenas pós-créditos.