AODISSEIA
Filmes

Pacificado: Esterótipos quebrados

Um olhar civil para uma vida de crimes


2 de novembro de 2019 - 17:04 - Tiago Soares

Um filme sobre uma favela brasileira filmado por um gringo, poderia muito bem cair numa visão deturpada e estereotipada de seus moradores. Felizmente, “Pacificado” não quer reinventar a roda, e apresenta uma história simples dentro de um mundo maior. Infelizmente, esse micro acaba se confundido com o macro formado pelos problemas sociais que afetam a comunidade, mas durante boa parte da produção o filme do americano Paxton Winters foca em Tati (Cassia Gil), uma tímida menina de 13 anos que deseja se reconectar com o pai depois que ele é libertado da prisão.

Jaca (Bukassa Kabengele) era o líder da comunidade, e enquanto estava preso deixou nas mãos de Nelson a responsabilidade. Quando sai depois de 14 anos, só quer viver a sua vida sem preocupações, portanto o título abrange não apenas o Morro dos Prazeres onde a obra se passa, mas o próprio pai da garota que deseja paz e distância daquele mundo. Bem filmado e com um visual exuberante, a produção aborda a paternidade em sua primeira metade, desde a relação de Tati com Jaca, a de Jaca com seu irmão Dudu (Raphael Logan) e até a do ex-líder com Nelson (José Loreto), que o vê como uma figura de autoridade.

Winters arranca boas atuações de seu elenco e dosa bem o tempo de tela de cada um deles, sem tornar a obra confusa. Há um respeito pelas pessoas que habitam aquele lugar e suas histórias, quando o diretor intercala imagens de arquivo da força policial invadindo as casas sem pestanejar. Existe também uma forma de renegar a violência, humanizando aquelas pessoas que não interagem diretamente com o caos que persiste em boa parte das favelas brasileiras.

Vencedor da Concha de Ouro no Festival de San Sebastian e do prêmio do público de melhor filme brasileiro na 43ª Mostra de São Paulo, “Pacificado” só não é melhor por não saber a hora de parar. O desconforto é sempre quebrado por piadas fora de tom, apesar dos diálogos serem naturais e a mãe de Tati, vivida por Débora Nascimento, abdicar de toda sua beleza a favor da personagem. A criminalidade que ganha destaque na segunda parte, talvez deixe a produção menos palatável, mas não menos real.

 

*Filme visto na 43ª Mostra de São Paulo