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Filmes

Critica: Os Oito Odiados

8 de janeiro de 2016 - 11:00 - Flávio Pizzol

Mais uma obra prima de Tarantino

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A música de abertura começa a preencher a sala, os planos abertos da imensidão branca ocupam a tela, os créditos amarelos dão a cara e, pronto, sabemos que estamos em mais um filme de Quentin Tarantino. Só isso já seria o bastante para justificar a nota máxima, mas esse retorno um tanto quanto cabalístico ao Velho Oeste merece mais e eu vou, assim como o filme, dividir essa análise em seis capítulos.

Capítulo Um – A estalagem, a nevasca e a tensão

Vendido como um faroeste desde o início da sua divulgação, Os Oito Odiados segue um caçador de recompensas e sua prisioneira a caminho de uma pequena cidade do Wyoming que, por conta de uma grande nevasca, ficam presos com outros homens de atitudes controversas em uma cabana/mercadinho/hotel. Eles não tem total conhecimento das intenções de cada um e o confinamento pode ter resultados inesperados e sanguinários.

Esse aspecto claustrofóbico do cenário e a importância dele para o desenrolar da trama é justamente o que acaba afastando esse filme de ser um faroeste no estilo Django Livre para aproximá-lo de Cães de Aluguel, o primeiro filme do diretor. Mas isso não quer dizer que um gênero se sobreponha ao outro, porque, no final, tudo é uma desculpa para Tarantino trabalhar com um grau elevado de tensão no ar e exercitar seus diálogos espetaculares, seu sarcasmo hilário, suas reviravoltas impactantes e a presença da violência exagerada na formação dos EUA de uma forma eficiente e mais contida do que o normal.

Capítulo Dois – Os diálogos, o sangue e as reviravoltas

Dentro de todos esses aspectos do cinema “tarantinesco”, o roteiro de Os Oito Odiados pode ser facilmente dividido em duas partes. A primeira e mais longa fica responsável por apresentar – com o mínimo possível de detalhes – os personagens principais, estabelecer o período histórico, mostrar cada canto do cenário e pressionar o botão de start do suspense, contando basicamente com os diálogos para prender a atenção do público e sustentar mais da metade do longa.

Já a segunda parte (que nos EUA vem após um intervalo de verdade) assume as rédeas quando a tensão chega bem perto do seu ápice para acelerar a trama, dar uma apimentada com alguns comentários sobre racismo e política, trabalhar com as reviravoltas e deixar o sangue começar a rolar. Por mais que o filme não se entregue a cenas de ação explosivas ou a grandiloquência já vista em outras produções do diretor, é a partir desse ponto que o lado mais gore e grandioso aparece de forma gloriosa.

Capítulo Três – A pedra no meio do clímax

O único problema do roteiro está justamente nessa parte, quando Tarantino para o texto no meio de um dos momentos mais chocantes do clímax para iniciar um capítulo a parte cheio de explicações e momentos um pouco mais arrastados. Isso acaba criando uma barriga que poderiam ter sido melhor resolvida com alguns flashbacks e alguns no meio dos outros capítulo sem quebrar a tensão em um de seus ápices.

Claro que nem tudo que acontece nesse momento merece ser descartado, considerando que os diálogos mantém o nível e a tensão mostra sua eficiência em qualquer ocasião, mas quebrar o roteiro daquela forma não se mostrou a decisão mais sábia. Ainda assim, não é algo que mancha a qualidade do filme, mas precisa ser citado por já ter acontecido em Django Livre e incomodar uma parte do público.

Capítulo Quatro – A homenagem ao cinema

Eu realmente acredito que a maior força de Tarantino está no seu texto cheio de metáforas e no seu jeito sempre inusitado de contar histórias, mas seu talento com diretor também é inegável. Em Os Oito Odiados, ele acerta mais uma vez em praticamente todos as suas escolhas criativas e ainda ganha mais pontos por atingir o ápice do suspense na sua carreira. É claro que a tensão sempre existiu e foi peça importante dos seus filmes, mas o que ele faz nessas quase três horas de filme é realmente inacreditável.

Outro destaque desse trabalho ficou restrito a poucos cinemas do mundo, mas o efeito das filmagens em 70mm também podem ser percebidos aqui, demonstrando que a escolha ajuda a contar a sua história. Ele faz um uso perfeito da tela mais “esticada” nas cenas externas, consegue surpreender com a exploração dos cantos e do segundo plano quando está dentro da cabana e ainda cria o contexto visual perfeito para o seu filme seja uma grande homenagem ao cinema dos anos 50, 60 e 70.

Capítulo Cinco – O segredo de Tarantino

No entanto, o maior talento de Quentin Tarantino está em saber escolher os membros da sua equipe técnica para que o seu trabalho consiga resultados ainda melhores. Aqui não é diferente e toda a parte técnica funciona de maneira perfeita, mas fica impossível não dar uma boa parte destaque para dois aspectos em particular.

O primeiro é a fotografia de Robert Richardson e a forma perfeita como ele consegue captar as megalomanias visuais de Quentin e usar a luz para gerar um pouco de claustrofobia. Enquanto o segundo destaque é o retorno brilhante de Ennio Morricone aos filmes de western com músicas-temas que transmitem toda a tensão do longa e marcam algumas cenas com perfeição sem ter a necessidade de emular ou brincar com as suas mais famosas trilhas de faroeste.

Capítulo Seis – Oito odiados, um cocheiro e Channing Tatum

Outra coisa muito marcante nos filmes de Quentin Tarantino são os seus elencos recheados de estrelas bem dirigidos por alguém que sabe o que quer e muito bem servidos por um texto sensacional. Todos os atores e atrizes que fazem parte de Os Oito Odiados fazem um trabalho perfeitos, se entregam aos papéis e encontram seu momento de brilhar, incluindo o cocheiro azarado e o astro Channing Tatum em uma pequena participação.

Ainda assim, na minha opinião, alguns merecem mais destaque por apresentarem atuações acima da média. Tim Roth e Walton Goggins fazem parte desse grupo por entregarem personagens caricatos e extremamente divertidos, enquanto Kurt Russell, Jennifer Jason Leigh e Samuel L. Jackson carregam uma boa parte dos filmes nas costas entre diálogos divertidos, mímicas, cérebros e monólogos totalmente teatrais sobre guerras e pintos.

Eles certamente merecem indicações ao Oscar e sua atenção, afinal são apenas a cereja no topo de um bolo praticamente perfeito. Quentin Tarantino teve algumas dificuldades para produzir esse filme, mas chega ao seu oitavo trabalho entregando mais uma obra prima com roteiro genial, argumentos sociais consistentes, direção madura e muitos momentos de tirar o fôlego. Pode ter certeza absoluta de que Os Oito Odiados já garantiu seu lugar na lista de melhores filmes de 2016.

OBS 1: Tarantino, não pare de fazer filmes depois do décimo. Por favor!