AODISSEIA
Filmes

Critica: Operação Sombra – Jack Ryan


27 de junho de 2014 - 17:00 - Flávio Pizzol

jack-ryan-shadow-recruit-poster-cast

Pensado para renovar completamente a franquia criada por Tom Clancy, a nova empreitada de Jack Ryan é bem mais tecnológica do que suas anteriores, mas não consegue abandonar o os clichês, o patriotismo e o maniqueísmo clássico da saga cinematográfica.

Seguindo a linha dos reboots, o filme começa com um prólogo que, ao meu ver, é totalmente desnecessário. Pode valer por mostrar alguns elementos literários que não haviam sido usados nas telonas, mas só serve para criar uma mini “Jornada do Herói” para Jack, onde ele conhece seu par romântico e supera todos os obstáculos existentes em 10 minutos de filme.

10 anos depois, o público reencontra Jack trabalhando secretamente para a CIA e descobrindo planos de uma guerra econômica entre Rússia e EUA. A partir daí, Ryan assume sua faceta de herói por acaso e vai para a Rússia para sua primeira – e clássica – missão de campo.

O roteiro, escrito pelo novato Adam Cozad e pelo vetrano David Koepp (Missão Impossível, Jurassic Park), é relativamente bom. Lida muito bem com a renovação ao criar uma história inédita misturada a alguns elementos pensados por Tom Clancy e até consegue empolgar em alguns momentos. O único e grande problema é que eles esqueceram qual é a essência das histórias de Jack Ryan.

Os livros e filmes do personagem são baseados no suspense, na espionagem e nas potencias reviravoltas e o roteiro acerta em cheio quando aposta nisso. Mesmo com o didatismo típico dos blockbusters atuais, desses momentos é que saem cenas interessantes como a inesperada briga no banheiro, a invasão ao escritório do vilão e o momento Sherlock Holmes do espião, onde ele descobre todo o plano da bomba de dentro do avião. A maioria dessas cenas são clichês ao extremo, mas sempre funcionaram em filmes desse tipo e não vão falhar tão cedo.

O patriotismo exacerbado também é um clichê que precisa ser mantido. Não há maneiras viáveis de separar Jack do heroísmo de salvar todo o país, mas isso não pode ser usado como desculpa para desenvolver um filme básico e maniqueísta, que não surpreende e troca a tensão tão necessária pela ação desenfreada.

Essa ação é pensada para conquistar um novo público que só vai aos cinemas para ver o “couro comendo”, mas, a partir do ponto onde Jack vira quase um super herói, o filme perde sua força de vez. As cenas de ação são bem executadas e editadas, mas não tem força para segurar o filme. Ainda assim acredito que a nova geração não deve conseguir imaginar uma história de espionagem clássica sem a ação do clímax. Isso é um infelicidade para o público e para esse filme.

Como já disse, a direção de Kenneth Branagh é boa, mas eu ainda prefiro ver ele dirigindo clássicos shakesperianos na Inglaterra. Consigo ver o que o aproximou do primeiro Thor, mas não consigo entender o que o levou para os bastidores desse filme. Será que foi a possibilidade de testar seu estranho sotaque russo?

Tirando algumas cenas, como o assassinato do chefe de segurança de Cherevin, que soam deslocadas e mal editadas, Kenneth realiza boas sequências de câmera de mão na ação final e bons planos sequência, que vão de travellings à giros 360º, nas cenas mais longas e calmas. Ele adapta o seu estilo próprio, abraça alguns estereótipos e faz a direção do filme funcionar mais do que o roteiro.

O elenco também é bem simples e metódico, assim como o longa. Na pele do novo Jack Ryan (que já passou por Alec Baldwin, Harrison Ford e Ben Affleck) está Chris Pine. Não sei se ele está se especializando em pegar personagens dos outros, mas ele assume bem as facetas do personagem sem prejudicar o andamento da história.

É isso que acontece com todo o elenco, por que o roteiro é mastigado e não exige muito de ninguém. Kevin Costner, Keira Knightley (cada vez mais bonita) e o próprio Kenneth Branagh atuam no piloto automático para ajudar Pine a carregar o filme. Admito que me perdi nos sotaques forçados de Keira e Kenneth, mas me diverti com o diretor fazendo o clássico vilão milionário à beira da morte, que quer realizar sua vingança pessoal atacando um país inteiro.

Um filme genérico e óbvio demais (em pelo menos dois momentos, eu realmente falei as falas dos personagens antes deles), que parece ter sido feito para agradar quem gosta dos bons suspense de antigamente e a geração da ação acelerada. O problema é que o filme não arrisca e, ao se aceitar como um simples divertimento raso e básico, pode ficar sem nenhum desses públicos.

OBS 1: Pra que tantos closes didáticos assim? Ninguém ensinou pra produção que isso antecipa o filme e o torna ainda mais óbvio.

OBS 2: Por que chamam o protagonista de Jack, se ele é apresentado como John Patrick Ryan? Isso me interessou mais do que aquele prólogo inútil.