AODISSEIA
Filmes

Crítica: Operação Red Sparrow

Um spy-thriller cheio de clichês ao melhor estilo 007

4 de março de 2018 - 15:22 - felipehoffmann

 

O homem entra na sala. Seus passos ecoam pelos cantos clássicos de um cômodo tipicamente russo. As janelas possuem longas cortinas de cores desbotadas. O longo pé-direito termina em um acabamento de madeira que circunda toda a sala. Os móveis carregam um ar do século XIX, rebaixados, brilhantes e robustos. O homem pega uma rígida garrafa de vidro com a melhor vodka de Moscou e enche seu copo pela metade. Enquanto brasa seu charuto, uma sedutora mulher o espera, portando um longo vestido vermelho, cuidadosamente combinado com o batom que enaltece seus lábios e destaca ainda mais sua pele branca.

O trecho retrata uma cena qualquer, recheada de clichês batidos de uma cultura bastante explorada no cinema. E Operação Red Sparrow é exatamente uma mescla desses chavões russos dentro de um universo investigativo que remonta à época da Guerra Fria.

 

 

As sparrows são agentes secretas russas que usam o sexo como forma de captar informações de inimigos do estado. Jennifer Lawrence (Mãe!) é uma dessas pardais e a faz com maestria. Falar mal de Lawrence virou moda hoje em dia. Ela já provou ser uma excelente atriz mas ainda assim existem olhos tortos quando o assunto é a sua atuação.

Em Operação Red Sparrow, ela se entrega à personagem, se despindo por completo de todas os papeis anteriores e encarnando uma verdadeira nativa, apesar do inglês com sotaque. Dominika Egorova era uma bailarina renomada do Ballet Bolshoi e acaba caindo nessa profissão por situações dúbias que o filme não sabe por onde seguir. Ora foi a vida que a levou para essa circunstância, ora foi o Governo que planejara tudo desde o início.

Aliás, Red Sparrow parece demonstrar certa dúvida do que fazer com seus personagens. Dominika tem sim seus motivos para superar essa sua vida. Precisa cuidar da mãe doente e o emprego oferecido pelo tio lhe fornece garantias. Mas ao mesmo tempo, ela usa suas novas habilidades contra aqueles que a colocaram nesse mundo e esquece por completo seus dilemas.

 

 

As tentativas de plot twist beiram o acaso, com várias dessas sendo jogadas em tela, no intuito de surpreender, mas acabam soando previsíveis e perdem o sentido da epifania.

Usar o sexo como ferramenta para recolhimento de informações pode soar como um jogo barato, principalmente em um ambiente atual com importantes argumentações sobre a mulher no contexto social. Contudo, o filme é um recorte baseado no livro norte-americano de Jason Matthews que de fato aconteceu. Operação Red Sparrow preserva seu ponto histórico para criar um thriller bem espião e um debate interessante sobre o uso dessas pessoas para fins governamentais.

No geral, a trama seria de um filmaço se tivesse um roteiro mais consistente. O longa até soa grandioso e elegante em certos momentos quando Francis Lawrence trabalha o clima gélido da Europa para dar um tom mais intimista à Red Sparrow. Aliás, o diretor já trabalhou com J-Law na franquia Jogos Vorazes e faz questão de abrir os ângulos para destacar a beleza da atriz. Porém por suas próprias escolhas, o filme se arrasta e não prende a atenção quando deveria justamente nos deixar vidrado nas revelações finais.