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Filmes

Crítica: Operação Fronteira – Entre a moral e a ganância

Questionamentos éticos, assaltos no meio da selva e muitos tiroteios...

14 de março de 2019 - 13:01 - Flávio Pizzol

Quando o projeto começou a tomar forma na mídia, há alguns anos, Operação Fronteira era um thriller político cujo o objetivo seria – na teoria – usar o talento do roteirista Mark Boal e da diretora Kathryn Bigelow (dupla responsável pelo premiado Guerra ao Terror) para abordar o funcionamento do tráfico de drogas na tríplice fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai. Agora, após anos marcados por inúmeros cancelamentos, o filme reuniu seu elenco estrelar e finalmente saiu do papel graças a Netflix, mas precisou pagar o preço de se transformar em um filme de ação simplório que pouco fala sobre qualquer aspecto social dos países que servem de cenário. Se isso é bom ou ruim, cabe ao público se embrenhar na selva para descobrir…

A trama do longa acompanha a história de cinco veteranos das Forças Especiais americanas que não foram devidamente recompensados pelos seus trabalhos como soldados. Contando o dinheiro e vivendo uma vida sem nenhum conforto, eles decidem colocar em ação um arriscado plano que inclui desde roubar um traficante de drogas na fronteira da América do Sul até fugir pelo meio da Cordilheira dos Andes. É claro que, pra variar, algumas coisas dão errado e eles precisam lutar tanto pelo dinheiro, quanto por suas vidas.

Como a própria sinopse já indica, estamos diante de um típico filme de assalto e a estrutura do primeiro ato não foge de nenhum padrão já estabelecido nesse sub-gênero. O roteiro escrito por Mark Boal ao lado do diretor J.C. Chandor (Margin Call – O Dia Antes do Fim) apresenta o contexto histórico da maneira mais rápida possível e logo cai no clássico jogo que envolve o reconhecimento do local, a explicação do plano e uma execução cheia de ação. O fato dos “assaltantes” serem soldados de elite cria um clima diferente, adiciona uma pitada de adrenalina comum em filmes de guerra e entrega um resultado que cumpre sua proposta em termos narrativos e visuais.

O meu primeiro problema com o longa é que, a partir desse ponto, o texto começa a caminhar por trilhas mais perigosas (literalmente), flerta com dramas de sobrevivência sem o mesmo sucesso dos primeiros minutos e deixa seu ritmo rolar morro abaixo, ignorando até mesmo o elemento da “camaradagem militar” que vinha preenchendo a produção. Essas decisões por si só influenciam na execução de um miolo de Operação Fronteira extremamente arrastado, mas, na minha opinião, ainda existe um contratempo maior no roteiro pouco inspirado de Boal e Chandor: a falta de desenvolvimento dos protagonistas.

É verdade que os dilemas que os cinco enfrentam durante as duas horas de projeção são bastante diretos e o público não precisa conhecer tanto sobre eles pra, pelo menos, compreender (ainda que sem concordar…) as decisões que movem a narrativa. No entanto, depois que passa das escolhas ligadas ao assalto em si, o longa fica praticamente vazio. A ausência de da profundidade individual e coletiva tira a força de alguns questionamentos propostos, atrapalha na construção de uma torcida por parte do espectador quando a selva “se vira contra eles” e chega muito perto de atrapalhar a grande reviravolta do terceiro ato. E, por mais que esse não seja o caminho mais justo, fica difícil não pensar em como o filme cresceria se abordasse com mais afinco os traumas de guerra, a rejeição da sociedade e outros tópicos que o roteirista já mostrou dominar em Guerra ao Terror.

As únicas coisas que permanecem intactas são as discussões morais e éticas em torno da mudança de patriotas para criminosos. Todo esse discurso primitivo sobre moralidade e ganância é a melhor coisa do filme, logo faz pleno sentido que o terceiro ato melhore substancialmente quando deixa pra trás a “barriga” formada no segundo ato, volta – em parte – a sua premissa inicial e desenvolve usa os conceitos citados pra criar conflitos mais diretos entre os personagens. É mais apressado do que deveria, mas consegue ter força suficiente pra reconquistar o fôlego e garantir que Chandor possa mostrar seu talento como diretor nas sequências de ação que ocupam praticamente todo o clímax de Operação Fronteira.

Isso não significa que um dos nomes mais badalados da nova safra de diretores hollywoodianos saia ileso da guerra, considerando que seu trabalho por trás das câmeras não tem um terço do requinte ou da inventividade de seus trabalhos anteriores. Mesmo apoiado nos ombros de um único protagonista, Até o Fim – meu favorito dele – serve como exemplo de um drama de sobrevivência que constrói a tensão sem precisar sequer de diálogos. Aqui ele tem mais personagens, mais diálogos e mais questionamentos morais, mas não consegue chegar nem perto do suspense ou do impacto (vide a sequência do helicóptero) que Operação Fronteira precisaria para ser marcante. Pra sorte do próprio filme, a colaboração do trabalho do diretor com o fotógrafo Roman Vasyanov (Na Mira do Atirador e Esquadrão Suicida) resulta no bom aproveitamento dos cenários naturais e na ótima execução de cenas de ação com pouquíssimos cortes.

O outro aspecto que ajuda – e muito – o filme a se manter no nível do “assistível” é seu elenco cheio de rostos famosos e muito bonitos. Mesmo sem ter um grande material pra trabalhar, eles conseguem extrair química do nada e dar algum peso aos sofrimentos que motivam seus personagens, sendo Ben Affleck (Garota Exemplar) o maior destaque nesse caso. Ele cadencia todas as suas falas com um cansaço que demonstra o peso carregado por Tom e divide os melhores momentos do filme com Oscar Isaac (No Portal da Eternidade) e Adria Arjona (True Detective). O restante do grupo formado por Charlie Hunnam (Z: A Cidade Perdida), Pedro Pascal (Narcos) e um subestimado Garrett Hedlund (Mudbound) tem alguns momentos de destaque e até acompanham o bonde, mas ainda ficam um passo atrás por serem basicamente estereótipos caricaturais que o texto precisa para evoluir.

Só é uma pena que, no meio de tantos atores talentosos e momentos com potencial, nada consiga impedir que Operação Fronteira caia em armadilhas básicas, com a falta de profundidade, na hora de desenvolver sua narrativa. Talvez o funcionasse melhor como um drama político, mas ninguém pode garantir isso. A dura verdade é que, no final das contas, o resultado acaba sendo uma colagem de vários sub-gêneros que nunca alcança seu máximo. Não é um filme de ação que entretém o tempo todo, não é um grande filme de assalto e também não consegue abraçar o suspense como deveria. Até tem boas cenas de ação, reviravoltas impactantes e discussões morais que melhoram quando falam sobre as consequências de cada ato, mas nunca consegue alcançar todo o seu potencial dramático. Infelizmente, Operação Fronteira é apenas mais uma opção assistível no catálogo da Netflix.