AODISSEIA
Séries

Olhos Que Condenam: “a carne mais barata do mercado é a carne negra”

Retratos de uma injustiça que permanece até hoje.


4 de junho de 2019 - 17:34 - Tiago Soares

Nova minissérie da Netflix, Olhos que Condenam fala sobre o racismo institucionalizado e o sistema carcerário americano com revolta e sofrimento.

“Porque esses brancos amam chamar a polícia
Porque esses negros me olham com tanta malícia
Porque aprendemos a odiar os semelhantes”

O trecho acima é uma parte da música “Kanye West da Bahia” do rapper brasileiro Baco Exu dos Blues, mas se encaixa perfeitamente com a nova minissérie da Netflix. Com 4 episódios, “Olhos Que Condenam” está disposta a contar a história dos cinco do Central Park, jovens que foram acusados injustamente de estuprar e agredir brutalmente uma mulher na noite de 19 de abril de 1989 em Nova York. Na época, os casos de estupro eram frequentes e a polícia local estava desesperada e não sabia o que fazer para omitir tal mídia negativa. Para isso “escolheram” cinco jovens (4 negros e 1 latino) que estavam presentes no local e montaram uma história, que acabou levando a condenação de todos –  com suas inocências sendo provadas apenas em 2002 – após um exame de DNA que mostrou o verdadeiro culpado.

No fundo aqueles jovens sabiam que não tinham errado, mas a pressão psicológica foi tão forte por parte do sistema, que Antron McCray (Caleel Harris/Jovan Adepo), Kevin Richardson (Asante Blackk/Justin Cunningham), Yusef Salaam (Ethan Herisse/Chris Chalk), Raymond Santana (Marquis Rodriguez/Freddy Miyares) e Korey Wise (Jharrel Jerome) tiveram suas vidas completamente mudadas, abrindo uma ferida que jamais pode ser totalmente cicatrizada. Ava Duvernay foi a escolhida para trazer a mesma sensibilidade de seus trabalhos anteriores (“Selma – Uma Luta Pela Igualdade” e “13ª Emenda”, documentário também presente no catálogo da Netflix). A diretora sempre lutou e abordou causas como a superlotação carcerária e o racismo institucionalizado dos EUA e aqui não é diferente.

Também escrita por ela, a história dramatiza ao extremo a trama de injustiça racial. Não há tons de cinza ou momentos de interpretação. Não existe sutileza. Os jovens (que na época tinham entre 14 e 16 anos) são os mocinhos e os policiais, detetives, promotores e juízes brancos são os vilões. Repare que não coloquei a família destes jovens, pois assim como no trecho da música citada acima, muitos dessas famílias e “amigos” agiram como predadores de seus respectivos filhos, para não escancarar o abandono – seja maternal ou do próprio estado americano – já que eles deixaram a prisão como homens formados e encararam um mundo completamente diferente.

Ava é poética em muitos momentos (como na cena de Kevin tocando trompete), mas também sabe ser brutal (como nas cenas de violência policial). O sentimento de revolta é o que mais atinge o espectador em cheio e a criadora sabe disso, às vezes tornando seus personagens caricatos demais – o que pode afastar aqueles que gostam de algo mais crível – mas não devemos esquecer que se trata de uma história baseada em fatos. Aquilo realmente aconteceu e ainda acontece, seja nos EUA ou aqui no Brasil. É triste saber que o mundo está repleto de Lindas Fairstein (Felicity Huffman), pessoas capazes de criar uma narrativa errônea e cercada de preconceitos em sua cabeça, desde esconder o celular quando um jovem negro passa pela mesma calçada, a acusar outro de um assalto ou chamar um jogador de futebol de “macaco”.

É importante dizer que “Olhos Que Condenam” também mostra o lado de Trisha Meili (Alexandra Templer), a mulher que corria pelo Central Park quando sofreu o abuso, não poupando o espectador de imagens fortes e relatos perturbadores. A desumanização daqueles garotos, que viviam suas vidas de forma perfeitamente normais antes do ocorrido, é construída pelo Poder Judiciário que deveria protegê-los, provando que a justiça não é cega mas apenas escolhe o que quer ver.


Obs 1: A história também foi contada no documentário “The Central Park Five”, de 2012.

Obs 2: Donald Trump (hoje Presidente dos Estados Unidos), gastou 85 mil dólares em anúncios de jornal pedindo que os jovens fossem condenados à pena de morte.