AODISSEIA
Filmes

O Relatório: Exército de um homem só

Um recorte verborrágico de uma investigação gigantesca.


29 de outubro de 2019 - 21:52 - Tiago Soares

Hollywood gosta de contar a história do homem incansável, mesmo que essa figura esteja a favor dos interesses americanos ou não. O homem da vez é o agente Daniel J. Jones (Adam Driver), que investiga a CIA pelas acusações de usar tortura em seus interrogatórios desde os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001. Tal medida servia para prevenir que novos ataques acontecessem. Junto da senadora Dianne Feinstein (Annette Bening), Daniel investiga um possível acobertamento de provas por quase uma década sem saber se, um dia, “O Relatório” será divulgado ou não.

Burocrático, o filme do estreante Scott Z. Burns evoca Aaron Sorkin ao máximo, seja pelos diálogos rápidos cercados de termos técnicos, ou pela ausência de sentimentos de seus personagens que atuam servindo ao texto. Adam Driver, por exemplo, é o homem frio que não possui família e não sai com ninguém para servir o Estado. O filme vai e volta no tempo em um edição rápida e por vezes confusa, se não fossem os anos aparecendo na tela.

As cenas de tortura, inseridas para causar determinado choque são bastante clichês. Coincidências que não aconteceram e homens surgindo das sombras com informações importantes são só alguns dos exemplos que tiram qualquer espécie de veracidade. Driver e Bening são os pilares que seguram a produção e mantém nosso interesse quase hipnótico. É interessante notar a crítica que os próprios americanos fazem sobre usar o 11 de setembro como desculpa para qualquer ato posterior tão pior quanto. A CIA torturava porque dava resultado ou porque sentia prazer fazendo isso?

A cada 119 presos nos EUA, 25% nunca cometeu nenhum crime, o que nos remete ao sistema carcerário brasileiro e suas fragilidades. Diante dessas informações, a produção deixa claro que a guerra continua e os métodos da CIA esticaram ainda mais esse conflito. Se os “vilões” não fossem tão caricatos, “O Relatório” de quase 7 mil páginas seria melhor.

 

*Filme visto na 43ª Mostra de São Paulo