AODISSEIA
Filmes

O Que Arde (Fire Will Come): A parábola do filho pródigo

Um regresso infeliz.


3 de novembro de 2019 - 00:44 - Tiago Soares

A parábola bíblica do filho pródigo que Jesus conta aos discípulos termina quando o tal filho volta para casa e o pai o acolhe de braços abertos, gerando a ira de seu irmão mais velho, que acaba indo embora. Mas não se sabe o que aconteceu depois disso. O filho teve uma relação saudável com a família? Ameaçou ir embora novamente? Conseguiu resistir as tentações? É isso que “O Que Arde” (Fire Will Come), procura responder ao contar a saga de Amador Coro (Amador Arias), um homem condenado a prisão após provocar um incêndio.

Ao sair da prisão, ele não vê ninguém a sua espera e decide ir para a casa de sua mãe numa pequena vila das montanhas da Galícia. Lá, os dias parecem não passar devido a monotonia e a relação silenciosa com a mãe não ajuda. Amador não se enturma com ninguém, ouve brincadeiras calado e parece não pertencer mais a esse lugar. Um novo incêndio na região não ajuda sua reputação. Seu mundo cai e os amigos e a família perderam a confiança nele.

A natureza se conecta com a humanidade e o diretor Oliver Laxe faz com que o fogo e a fuligem tomem conta da tela vagarosamente, como os dias de Amador e sua mãe Benedicta (Benedicta Sánchez). Mesmo libertado, o protagonista permanece preso. A volta pra casa infeliz é o melhor exemplo disso. Entretanto, a lentidão que pode ser inspiradora também incomoda nos 85 minutos que parecem ser muito mais longos.

Vencedor do prêmio do júri da Mostra Um Certo Olhar no Festival de Cannes 2019, “O Que Arde” é um conto de desafeto entre duas pessoas que são obrigadas a viver juntas entre si e a inóspita natureza. O visual aterrador parece engoli-los, deixando tudo cinza, como o afeto discreto que não tem mais cor.

 

*Filme visto na 43ª Mostra de São Paulo