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Crítica: O Protetor 2 escorrega, mas continua um grande filme de ação

Esqueça Liam Neeson... Se estiver precisando de ajuda, fale com Denzel Washington!

21 de agosto de 2018 - 13:45 - Flávio Pizzol

Quando O Protetor estreou lá em 2014, sua cara de Busca Implacável me afastou completamente do filme. Eu estava de saco cheio desse tipo de produção e não queria pagar por mais uma história genérica de um ex-agente da CIA ajudando pessoas. O que eu não sabia é que estava errado sobre a natureza do longa e acabaria, quatro anos depois, queimando minha língua quando assistisse esse estudo de personagem repleto de bons momentos dramáticos que, por acaso, também era um filme de ação estilizado e preciso. O resultado foi que eu pirei na proposta e corri para ver O Protetor 2 o mais rápido possível.

A história – escrita mais uma vez por Richard Wenk (Sete Homens e um Destino) – continua acompanhando a rotina de Robert McCall, explorando seu novo trabalho como motorista, suas relações pessoais com os vizinhos e suas pequenas missões para ajudar aqueles que ele mesmo considera necessitados ou injustiçados. A diferença é que, dessa vez, sua motivação principal é lidar com fantasmas do passado para descobrir quem matou sua melhor amiga e, consequentemente, se vingar.

Essa decisão permite que o texto mergulhe um pouco mais no passado do personagem, funcionando mais como “filme de origem” do que a produção que iniciou a franquia. No entanto, isso é meio que mal aproveitado porque só ganha importância quase na metade de um filme que se entrega com mais facilidade a certas convenções de gênero que sequer davam as caras no primeiro longa. Em outras palavras: enquanto o anterior apenas sugeria algumas cenas de ação no lugar de escancará-las a cada vinte minutos, esse gasta seus primeiro quinze minutos com algumas sequências de pancadaria sem nenhuma ligação com restante da narrativa.

As duas cenas em questão servem apenas como aquelas aberturas que reapresentam o personagem com o pé na porta e, apesar de gerarem um incômodo passageiro, tem energia suficiente pra divertir e “esconder” suas funções rasas. O que elas não conseguem esconder é o fato que o primeiro ato de O Protetor 2 é um tanto quanto problemático graças a uma série de momentos que parecem irrelevantes. Alguns elementos até ajudam a traçar o clima urbano, dramático e realista que marca as ruas de Boston e tudo que cerca o protagonista, mas Wenk definitivamente não precisava gastar quase trinta minutos além das aberturas citadas para estabelecer subtramas desnecessárias que só impedem o filme de chegar mais rápido ao que interessa.

É verdade que todas as tramas paralelas fazem parte do universo pessoal de McCall, constroem sua personalidade fora da ação (na mesma vibe do estudo de personagem) e eventualmente se conectam através do mesmo, mas nenhuma delas impede que o filme pareça desconexo e arrastado até chegar de fato nos eventos que vão se tornar a principal linha narrativa da continuação. Inclusive, a guinada que o filme começa a dar depois da ótima sequência da invasão ao quarto de Susan Plummer faz com que seja impossível não perceber essa diferença de ritmo e qualidade.

E essa diferenciação se estende, porque também é a partir desse momento que outras duas peças-chave do filme – Antoine Fuqua (Dia de Treinamento) e Denzel Washington (Um Limite Entre Nós) – realmente brilham. O primeiro mantém a mesma pegada metódica e ultra violenta que tornava o primeiro longa tão impactante, mas parece injetar mais energia e se arriscar mais na metade final. Ele aproveita a emoção envolvida na missão para fugir do modus operandi extremamente planejado do protagonista e brincar mais com os movimentos de câmera, criando sequências ainda mais estilizadas na perseguição de carro que marca a última reviravolta e num clímax de tirar o fôlego que, assim como o original, usa a água para construir um visual fora do comum para o gênero.

Já Denzel deixa claro (como se alguém não soubesse) que tem carisma e presença de cena suficiente pra carregar uma franquia como O Protetor desde o início dessa continuação, mas preenche a tela de verdade quando sente a perda de sua amiga e precisa lidar com pontas soltas do passado. Seus dois diálogos principais – conduzidos sem nenhuma trilha sonora ao fundo – com o personagem do também ótimo Pedro Pascal (Game of Thrones) são tão profundos, reveladores e recheados por tensão que mexem com o público instantaneamente. E, pra nossa sorte, Antoine e Denzel mantém essa mesma métrica de qualidade em outros diversos momentos que não só aproveitam muito bem as atuações de Melissa Leo (Os Suspeitos), Orson Bean (Quero ser John Malkovich), Bill Pullman (The Sinner) e Ashton Sanders (Moonlight – Sob a Luz do Luar), como criam suspense e emoção até mesmo onde o roteiro falha.

No final das contas, tudo isso resulta em uma produção que parte dessa mistura precisa entre drama, tensão e pancadaria muito bem coreografada para entregar um filme de ação acima da média. Entendo que a ausência de velocidade pode fazer uma parcela do público olhar torto, mas vou deixar avisado que a combinação da direção segura e precisa de Fuqua (incluindo na câmera-lenta usada com perfeição) com figura penetrante de Robert McCall supera qualquer corrida de Liam Neeson atrás da filha. E, acima de qualquer subtrama inchada faça essa continuação ser inferior ao original, eu garanto outra coisa: O Protetor 2 é um puta filme que merece ser visto nos cinemas antes que a espera gere arrependimentos ou queimaduras na língua.