AODISSEIA
Filmes

Crítica: O Primeiro Homem carimba a passagem pro Oscar

E, sim, eu vou babar o ovo do Damien Chazelle nesse texto...

19 de outubro de 2018 - 02:40 - Flávio Pizzol

Damien Chazelle entrou em Hollywood com um pé na porta chamado Whiplash e logo se tornou o diretor mais jovem a ganhar o Oscar com La La Land em uma carreira curta e impactante que tinha como pilares o domínio da linguagem cinematográfica, grandes elencos e a música como parte essencial da trama. É por isso que o anúncio da produção de O Primeiro Homem gerou tanto burburinho na indústria: um dos nomes mais quentes do momento estava fazendo um filme completamente diferente do que o tinha colocado entre as estrelas. Ele estava preparado para expandir sua carreira e mostrar a versatilidade que faltava para que eu o restante do mundo cravássemos seu nome entre os melhores dessa última geração.

Por sorte, toda a expectativa foi saciada com sucesso graças a um Chazelle decidido a fazer não só algo diferente dentro da sua carreira, como também caminhar (assim como Armstrong) por terrenos pouco explorados pelo próprio gênero das cinebiografias. Isso significa que, mesmo seguindo a narrativa convencional e linear no seu formato, O Primeiro Homem abraça certas ideias que transformam a vida do astronauta por trás de um dos maiores eventos da história num espetáculo quase perfeito que merece ser visto no cinema e consagrado pela maior premiação do cinema mundial. E, por mais que seja consideravelmente difícil fazer um texto completo sobre tudo que compõe essa peça espetacular, vamos tentar separar pelo menos os maiores diferenciais com calma…

O primeiro aspecto que merece ser notado está na maneira como o longa foge dos maiores clichês de filmes espaciais através da maneira como ele é filmado, considerando, por exemplo, que o longa se concentra em alternar uma pegada quase documental com câmeras acopladas nas naves e muitos planos focados no ponto de vista de algum personagem. Ou seja, ao invés de depender daquelas típicas imagens abertas onde o Planeta Terra enche a tela, Chazelle prefere encontrar um jeito de sugar o espectador para dentro das vidas, cabines e viagens dos pilotos e mantê-los ali na maior parte dos 142 minutos de projeção. O resultado é uma experiência imersiva que viaja por diversas emoções do público, incluindo até níveis de tensão dignos de um filme de terror  durante as decolagens.

A única coisa que o diretor parece não abrir mão nessa caminhada marcada por experimentações é de um realismo que vai da reconstrução histórica perfeita até uma tentativa bem sucedida de desglamourizar a vida dos astronautas. Aqui, o sucesso é comemorado e coroado com todas as glórias merecidas, mas só vem depois de muitas tentativas e erros que não são fotógrafos com algum brilho que possa apagar o fato de que, entre outras coisas, pessoas morreram no processo. E, além disso, o filme repete constantemente que, antes de serem tratados como heróis que inspiraram nações, as pessoas envolvidas ali eram meros trabalhadores que depois de um dia cheio voltavam pra casa pra tirar o lixo ou colocar seus filhos pra dormir.

Essa é a visão escolhida para ditar toda a composição do longa e isso reflete diretamente na construção de um Neil Armstrong “pé no chão” que toma decisões por curiosidade e definitivamente não se vê como alguém superior. Mais do que isso, ele foge até mesmo do esterótipo de líder falastrão e carismático que ficou estabelecido no cinema e que seria esperado de alguém tão importante. O verdadeiro Neil Armstrong (quem já viu alguma das entrevistas reais consegue perceber a proximidade) é um sujeito simples, calado, entristecido pela história e quase apático que deixa a leveza escapar em poucos momentos, sendo a atuação precisa de Ryan Gosling (Blade Runner 2049) responsável por completar com chave de ouro a criação desse retrato sem vaidade de uma lenda que, por incrível que pareça, não é tão conhecido quanto mereceria. E, deixo avisado, o trabalho contido de Gosling se permite extravasar em poucos momentos de O Primeiro Homem, mas é – por motivos diferentes – tão difícil quanto aquele que o levou ao Oscar por La La Land. Outra indicação aqui não seria injusta…

Pra melhorar, o ótimo roteiro de Josh Singer (Spotlight – Segredos Revelados) segue essa pegada intimista do longa, trabalha em cima de detalhes pessoais de Neil que ajudam a fortalecer a trama e vai além quando praticamente pega impulso na parte caseira da relação, criando um contraste entre trabalho e vida pessoal que, ao mesmo, exemplifica a tal humanidade proposta e facilita a conexão do público com os personagens. Esse é um recurso comum em cinebiografias, mas aqui parece ganhar mais importância a cada vez que a montagem de Tom Cross (O Rei do Show) escolhe alternar esses ambientes e situações para construir as causas e consequências que compõem a trama.

É nesse contexto que surge a outra força motriz de O Primeiro Homem: Claire Foy (The Crown). Interpretando a esposa de Neil na época do seu pouso na lua, ela assume as rédeas do filme em diversos momentos com a construção de uma personagem forte, emotiva e, principalmente, mais expansiva do que o marido. E não é porque o foco está em Neil e nas pesquisas científicas que ela precisa ficar em segundo plano, afinal a própria Janet se apresenta como alguém que não vai ficar em casa esperando o herói pousar com um foguete no jardim e ser aplaudido. Ela bate de frente na mesma proporção que ama e, graças a química entre Claire e Ryan, esse relacionamento vira uma espécie de pedra angular no processo de humanização que eu já citei mais de uma vez.

No entanto, por mais que ser intimista e pessoal em relação aos personagens se torne o foco da produção, isso não impede que o longa também seja um espetáculo visual de primeira linha. Daqueles que merece ser visto na maior tela possível, porque existe muita beleza e força na maneira levemente diferente com que Chazelle enxerga e constrói esse senso de espetáculo. Sua atenção talvez não esteja voltada para grandiosos planos abertos ou explosões, mas o casamento entre música (sim, ela continua importante), fotografia e montagem resulta aqui em uma das produções mais sensoriais que surgiram nos últimos anos. Logo você pode simplesmente sentar na poltrona e sentir, tendo a certeza de que a história de O Primeiro Homem vai mexer com seu íntimo, gerar arrepios e quem sabe arrancar lágrimas através de aspectos textuais e visuais que resultam num conjunto de obra perfeito.

Em outras palavras: sim, Chazelle entregou mais uma obra-prima marcante e já cravou seu nome na história do cinema.


OBS 1: Está enganado quem ensa que a ausência de grandes efeitos no espaço tiram o peso do longa… Existe sim muita imponência em ver a Terra surgir pela primeira no reflexo do capacete.

OBS 2: O filme gerou algumas discussões sobre o fato de não usar a clássica imagem da bandeira sendo fixada na lua. O Primeiro Homem é um filme nacionalista até onde precisa por conta das motivações da Corrida Espacial, mas não baba o ovo disso e nem precisava fazer. A imagem poderia resultar em um belo frama? Sim. Mas o diretor fez outras escolhas que refletem várias coisas citadas na crítica e a substituição de tal cena em primeiro plano faz muito sentido no contexto.