AODISSEIA
Filmes

O Olho e a Faca – A fragilidade das decisões

Novo filme de Paulo Sacramento erra em equilibrar terra e água.


25 de junho de 2019 - 14:44 - Tiago Soares

O Brasil é um dos maiores produtores de petróleo do mundo. A Petrobrás inclusive está em evidência, não apenas pela riqueza em si, mas também pelos escândalos recentes. É até tardio a ideia de fazer um filme falando sobre essa riqueza mineral e as pessoas responsáveis por produzi-la. Aqui em “O Olho e a Faca”, tal recurso é usado como pano de fundo para contar a história de Roberto, que trabalha numa plataforma de petróleo, passando um longo tempo longe da família. Ele tem uma relação sólida com os amigos na base e com seus filhos e esposa. Toda essa estabilidade é ameaçada quando ele recebe uma promoção e a partir daí sua vida começa a mudar.

O diretor Paulo Sacramento (“Riocorrente”), utiliza da bela paisagem para trazer imagens que enchem os olhos e fazer sua câmera transitar entre cada lugar da plataforma, além é claro de mostrar a rotina daqueles homens. Quando vai para a “terra”, essa característica se perde, trazendo o já tradicional estilo novelesco de plano/contra-plano, prejudicado também por uma direção de atores que até tem seus momentos de brilhantismo, mas na maioria das vezes deixa tudo artificial. O texto de Sacramento em parceria com Eduardo Benaim (“Tito e os Pássaros”) é fraco, não soando natural, aliás, há tempos este é um dos grandes problemas do cinema nacional.

olho faca rodrigo lombardi

Felizmente, o cineasta consegue manter nossa atenção no decorrer do segundo ato, já que as relações de Roberto são abaladas, e tudo desmorona à sua volta. A boa atuação de Rodrigo Lombardi (da série “Carcereiros”) e do elenco coadjuvante composto por nomes como Maria Luisa Mendonça e Ester Goés, respectivamente a esposa e a mãe de Roberto, está excelente e faz milagre com um roteiro raso. As tensões geradas pelas mudanças na vida profissional do protagonista, afetam diretamente sua vida pessoal e vice-versa. Uma desgraça nunca vem sozinha, e elas se entrelaçam à medida que o tempo avança e a faca vai ficando cada vez mais perto do olho.

A fim de se tornar mais profundo do que de fato é, “O Olho e a Faca” flerta com a realidade em metáforas visuais que até fazem bem a narrativa, acompanhadas de um monólogo bem executado por Caco Ciocler, em uma pontual participação. Sua amizade com Wagner (Roberto Birindelli), é outro ponto que merece destaque, já que os dois possuem bastante entrosamento. O desequilíbrio entre oceano e terra firme, é o ponto fraco de uma produção que poderia ser muito melhor se trabalhasse mais a dualidade de seu protagonista, fazendo-o não pertencer a nenhum dos dois mundos.