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Logo que saíram os primeiros vídeos e trailers, O Mordomo da Casa Branca se mostrou um dos favoritos ao Oscar. Com o tempo, o filme foi perdendo força, mas ainda pode abocanhar algumas indicações pela história representativa e suas atuações fortes.

A história segue Cecil Gaines, o mordomo que ficou mais de 30 anos trabalhando para o presidente dos EUA. Através da narração de Cecil, viajamos para sua infância, seu aprendizado para ser um “negro de casa”, seu trabalho no Hotel Excelsior e sua família. Eu cheguei a pensar se não seria injusto contar só a história de Cecil, sendo que os outros mordomos (Lenny Kravitz e Cuba Gooding Jr.) trabalharam tanto tempo quanto ele na Casa Branca. O núcleo familiar é o faz com a história de Cecil seja tão importante, porque sua história vai se cruzar com a luta pelos direitos dos negros, representada pelo seu filho, Louis (mesmo que algumas coisas dessa parte sejam inventadas).

Essa representação da luta contra o preconceito, que cita Malcolm X e Martin Luther King, junto com o fato de ser uma história real, cercada de sofrimento e superações, deixa esse filme com cara de indicado ao Oscar. Os “vovôs” da academia gostam desse tipo de filme.

A maneira como o roteiro de Danny Strong lida com a história de Cecil me lembrou muito o filme Forrest Gump. Aqui viajamos por vários fatos importantes da história americana, enquanto o protagonista narra tudo cuidadosamente. Temos os já citados King e Malcolm X, Ku Klux Klan, morte de Kennedy, Apartheid e Guerra do Vietnã, sendo estes mostrados através de muitas cenas históricas originais e recriações de discursos e falas. Também temos a já citada história de superação, que é muito forte no filme estrelado por Hanks. Só faltou alguém gritar um Run, Cecil Run.

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O roteiro pode não ser tão criativo, mas algumas cenas são intensas e cercadas de ótimos diálogos, principalmente quando envolvem Cecil e Louis. Dois destaques podem ser a cena da lanchonete (enquanto o edição brinca com uma comparação aos jantares da Casa Branca) e o diálogo sensacional sobre Sidney Poitier (a melhor cena do filme, para mim).

Uma coisa muito interessante, que só foi atingida por causa do ótimo conjunto formado entre roteiro, direção, elenco e parte técnica, é a caracterização do sete presidentes que passam pela vida de Cecil na morada oficial. Nesses momentos contemplamos boas atuações de atores famosos, uma ótima maquiagem e uma sutileza incrível do roteiro ao captar algumas particularidades dessas pessoas. Destaque para Alan Rickman como Reagan, James Marsden como Kennedy e John Cusack como Nixon.

Outra forçada de barra do filme é fazer com que o mordomo sempre ouça as conversas sobre os direitos do negros e presencie os acontecimentos antes deles serem divulgados. Parece que Cecil o único mordomo da Casa Branca, afinal só ele está presente durante esses momentos.

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Também fiquei muito chateado quando soube que algumas cenas são inventadas. O mordomo original, que se chama Eugene Allen, não cresceu em campos de algodão (aquele início todo é forçado para emocionar o público logo de cara) e seu filho nunca foi um Pantera Negra. Ele até esteve presente em alguns momentos importantes, mas não com todo aquele protagonismo mostrado no longa. Quer dizer que o filme é baseado em fatos reais, mas uma das forças motrizes do filme foi inventada?

A direção de Lee Daniels é só boa, já que não perto do seu trabalho em Preciosa. A história é extremamente novelizada, com muitas coisas forçadas para causar emoção. Pelo que li da história original, ela é interessante e emocionante sem as “forçadas de barra” promovidas pelo roteiro e pela direção. Lee opta por focar em coisas desnecessárias.

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Cada momento do filme é quase que um episódio de série e muitos deles são repetitivos. Cecil trabalhando, conversando com o presidente, sofrendo pelo filho, as lutas do filho e troca de presidente. Isso incomoda e prejudica o filme que se arrasta em alguns momentos. Um pouco de criatividade de Lee Daniels poderia transformar alguns desses trechos em coisas mais fluidas e interessantes.

Outro erro de Daniels é pensar que o seu elenco trabalharia sozinho. Sim, é um fato que o elenco que o filme reuniu é o sonho de qualquer diretor, mas, ainda assim, não basta só deixar a câmera focada nos mesmos e imaginar que estes vão fazer todo o trabalho sozinhos. Acredito ter faltado um pouco de direção de elenco, ainda que a entrega desses deixe as atuações formidáveis.

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Com um roteiro funcional, mas pouco criativo, e uma direção falha, o filme passa a depender inteiramente de seu majestoso elenco. E, como eu devo ter deixado claro no parágrafo anterior, eles não decepcionam. Forest Whitaker é um ótimo ator, que quase nunca decepciona. Sua entrega e a emoção passada para o espectador são de outro mundo, mesmo quando as ações de seu personagem ficam chatas e repetitivas.

Oprah Winfrey também entrega uma atuação fortíssima, sendo inclusive mais favorita ao Oscar que Forest. Sua atuação, principalmente nos momentos alcoólatras de sua personagem, prende a atenção do espectador quando o filme se torna chato e arrastado.

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Outro ótimo destaque é o jovem David Oyelowo, que faz um ótimo trabalho com Louis, sendo, ao lado de Forest e Oprah, a força motriz do filme. A relação familiar dos três e forte, tensa e emocionante. A melhor cena do filme, aquele diálogo sobre Poitier, representa um dos ótimos momentos dos três no filme.

Ainda temos os coadjuvantes que fazem um bom trabalho, mesmo que as participações sejam extremamente pequenas. Alan Rickman, Robin Williams, John Cusack, James Marsden, Jane Fonda, Liev Schreiber, Terrence Howard, Cuba Gooding Jr e Lenny Kravitz são os mais importantes.

Um filme problemático, que passa longe de ser a obra prima que os críticos nacionalistas americanos estavam falando. Ainda assim, a história importante e as atuações valem o tempo de tela do filme e, talvez, também valham algumas indicações a famigerada estatueta dourada.

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

Sherlock (3×02 – The Sign of Three)

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1 Comment

  1. […] ou não, usa um ângulo incomum. Já vimos filmes sobre Martin Luther King, Malcolm X e até do mordomo do presidente, mas nunca tinha sido feito (pelo menos, eu nunca vi…) um filme sob esse ponto […]

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