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Crítica: O Mecanismo

O Brasil não é para amadores

25 de março de 2018 - 16:15 - felipehoffmann

Essa crítica possui alguns spoilers. Cuidado.


Quando a Lava Jato foi se desenrolando e ganhando notoriedade, muitos diziam sobre o teor cinematográfico da operação. E, de fato, as circunstâncias eram hollywoodianas. A cada semana um fato novo girava uma engrenagem complexa de crimes políticos, escândalos de corrupção e abordagem midiática.

José Padilha (Ônibus 174) e Netflix reforçam uma dobradinha de sucesso com Narcos e apostam em O Mecanismo, como a segunda produção totalmente brasileira para o serviço de streaming.

Padilha, você sabe, tem aquele estilo característico, tão marcante em Tropa de Elite, por exemplo. Ele traz sempre uma narração onipresente do personagem principal, com tom de voz moroso e preciso. Assim, explica pro espectador cada detalhe da trama, sem deixar passar nada. Acontece que a Lava Jato é complexa, a corrupção brasileira é complexa e nem mesmo um Capitão Nascimento complementando as coisas pode ajudar a compreender 100% da situação.

 

 

Essa primeira temporada de O Mecanismo conta o início da Lava Jato. Como a operação se formou e o aspecto grandioso que veio a ser. A produção teve muito cuidado ao trocar os nomes dos fatos reais, sem perder a identidade de cada coisa. Assim, a Petrobras virou Petrobrasil, o doleiro Alberto Youssef agora é Roberto Ibrahim, o diretor de abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa é João Pedro Rangel e Lula e Dilma viraram Higino e Janete.

De fato O Mecanismo aborda o início da operação. Porém a série escolhe contar suas histórias de forma muito didática, repetindo várias vezes a mesma situação. Para nós, brasileiros, já é um costume ouvir da Lava Jato, das suas reviravoltas e de todo jogo político envolvido. Para os outros 190 países que a Netflix vai distribuir, isso é totalmente novo. É compreensível esse didatismo, contudo pode ficar cansativo quando você já sacou o que queriam dizer.


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Selton Melo (O Palhaço) era o chamariz da série. Desde quando começaram as primeiras divulgações de O Mecanismo ele era o garoto propaganda, junto do nome José Padilha. O grande problema nisso tudo é que Selton fica de fora de boa parte da temporada. A escolha de fazer um agente federal beirando à loucura era muito boa, mas o ator foi totalmente jogado pra escanteio, com um papo de suicídio que não colou nem um pouco. Depois que ele volta, fica claro a ideia do personagem. Ruffo era pra ser o cidadão comum do Brasil, que descobre, com situações do dia a dia, que a corrupção se espalhou e, literalmente, mora na frente da sua casa.

Ruffo passa a agir nos bastidores, jogando informações para dentro da Lava Jato, como se fosse ele o “Cidadão de Bem” que quer ver seu país melhor. A impressão é que ele consegue fazer simplesmente tudo, atropelando a Polícia com seu modus operandi e, quando lhe é conveniente, ameaçando quem for preciso para conseguir as informações. Não colou.

 

 

Como Selton se torna um coadjuvante oculto em O Mecanismo, todo o protagonismo se volta à Carolina Abras (Felizes Para Sempre?), fazendo a delegada Verena Cardoni. Ela descobre traços irregulares, compra a briga e cria a Lava Jato. Mesmo jogando contra todos, ela bate o pé e faz o que deve ser feito para seguir com a operação. Isso rende algumas frases de efeitos ao melhor estilo Padilha, mas que podem soar um tanto quanto bobas.

 

No final da noite, só o Ibrahim gozou. Mas era eu que estava pronta pra foder todo mundo.

 

Outro bom destaque vai para o excelente Enrique Díaz (Justiça). Na pele de Alberto Youssef, aka Roberto Ibrahim. Díaz é muito bom e consegue dar uma personalidade ao personagem, que os outros não possuem. Ibrahim tem algumas camadas que só existem graças ao trabalho do ator, que passeia pelo ar de superioridade, desdém, medo e arrogância. Tudo de forma sutil e nada forçada, sem mesmo apelar para uso da família como um sentimentalismo barato.

 

 

É Justamente aí o grande problema de O Mecanismo. Explicar a política brasileira é realmente uma tarefa árdua e enquanto a série faz isso, é tudo muito bom. Entretanto, quando ela resolve aprofundar nos dramas pessoais de cada um, nos relacionamentos, nas doenças, ela vira um melodrama monótono. Sem graça mesmo. E aí, em certos momentos, a produção quer dar mais destaque à isso, em detrimento do plot central. Puts, erraram rude.

No geral, O Mecanismo é uma soma de coisas positivas e negativas. Os dois últimos episódios, dirigidos pelo excelente Daniel Rezende (Bingo: O Rei das Manhãs), levam a série para uma outra perspectiva, ainda maior, quando a Lava Jato potencializa a polarização política do país. Quem acha a operação motivada por ideologias, vai entender uma coisa sobre as conversas de Samuel Thames (Michel Temer) e Lúcio Lemes (Aécio Neves) em Brasília. E quem acredita que tudo é desprovido de politicagem, avesso à convicções, vai entender outra coisa sobre o triplex de Higino (Lula).

Fica, acima disso tudo, o debate sobre a corrupção. Entre erros e acertos, a mensagem é clara e a conversa, fundamental.

O que O Mecanismo quis dizer, pelo menos para mim, é que a corrupção está intrínseca no brasileiro. Generalizou como uma doença, afetando cada parte da sociedade. Não importa se é uma empreiteira fazendo cartel para superfaturar obras do governo ou se é um encanador que precisa resolver o problema de esgoto na rua. A corrupção é o câncer do brasileiro e essa doença, meu amigo, infelizmente não tem cura.