AODISSEIA
Filmes

Critica: O Juiz

20 de janeiro de 2015 - 13:52 - Flávio Pizzol

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Dizem por aí que esse é o filme que Downey Jr. escolheu fazer parte. Não importa se ele gostou da história ou se ele visou alguma indicação como ator, já que ele de fato bancou essa interessante mistura de subgêneros. É um filme um tanto quanto pretensioso, mas que tem seu valor.

O longa segue Hank Palmer, um arrogante advogado que precisa voltar para sua terra natal após o falecimento de sua mãe. A partir daí, um mar de ressentimentos e histórias do passado vão voltar à tona, principalmente quando ele precisa defender seu pai (com quem não tem uma boa relação) de uma acusação de assassinato.

Pode ser que o filme engane quem estiver procurando um daqueles filmes de tribunal, porque esse vai ser só um dos muitos subgêneros do filme, apesar do título e do cartaz. É verdade que os roteiristas, Nick Schenk e Bill Dubuque, também se saem bem nesses momentos na frente do júri, mas não adianta esconder que o filme é um ótimo melodrama sobre relações familiares.

De fato, um dos grandes méritos do roteiro é saber trabalhar muito bem com todos os subgêneros utilizados e dosar muito bem o desenvolvimento da história para prender o espectador. Assim a história, de grande força dramática, caminha pelo suspense do tribunal e pelo humor ácido de Downey Jr, enquanto apresenta aos pouquinhos as peças do tabuleiro.

Um bom exemplo é a própria relação entre Hank e seu pai. Muitas informações e mágoas são jogadas para o espectador em apenas um olhar e um aperto de mão seco entre os dois durante o velório. Sabemos através de diálogos simples que muita coisa aconteceu entre eles, mas só vamos entender ambos os lados e suas decisões bem depois.

Não temos nenhum suspense criminal nas mãos, mas sempre temos a sensação de que não sabemos de tudo. Nada disso vai levar o filme a uma grande reviravolta, como nos próprios filmes de tribunal, entretanto força o público a entrar na história, se importar com os personagens e esperar para saber mais. E isso é muito importante, já que seria difícil aguentar quase duas horas e meia de puro melodrama.

Ainda assim, o roteiro erra em alguns pontos. O maior destes talvez seja a grande quantidade de histórias paralelas desnecessárias, como a de Sam e Carla. A presença de Sam é importante para sabermos um pouco mais sobre Hank, mas todo aquele draminha com a filha dela é desnecessário e cansativo. Ele poderia ter agarrado qualquer outra pessoa no bar para poupar o público de um plot cansativo e inútil narrativamente.

Isso faz com que alguns momentos mais arrastados do que os outros e até tira um pouco daquele balanço tão bem trabalho pelos roteiristas. Quando estamos focados em Hank e seu pai, queremos saber mais, entretanto, quando vamos para a história de Carla, nem a beleza da atriz é o suficiente para prender o público.

Também acho que o filme se estende um pouco demais e se entrega a um final muito bonito, mas pobre na escrita. Não estou dizendo que aquela cena no barco é ruim, todavia acho muito conveniente tudo aquilo acontecer ao mesmo tempo, assim como acho conveniente o final com a cadeira girando.

Eu imagino se um corte seco naquele Downey Jr. chorando depois do julgamento não funcionaria bem como final. Ou mesmo que não fosse assim, que outras cenas assumem aquele final. No entanto, eu ainda entendo que essa necessidade de um final relativamente feliz esteja internamente atrelado ao melodrama.

A direção de David Dobkin também é competente, apesar de reutilizar quase tudo visto em tela. A comédia (gênero no qual Dobkin fez sua carreira) e as cenas de tribunal apresentam mais do mesmo, se compararmos com outros filmes de Dobkin ou com clássicos filmes de julgamento, como As Duas Faces de um Crime.

É  na parte mais dramática do longa, que Dobkin consegue provar seu valor e conquistar o público. Com um jogo de câmera inteligente e muito sensível, ele consegue filmar belas cenas de embate ou de reaproximação entre Downey Jr. e Robert Duvall. E o mais importante é que ele consegue emocionar sem apelar através de um grande close-up, de uma trilha mais forte ou de uma edição específica.

Claro que para isso ele conta com as grandes atuações de seu elenco. Robert Downey Jr. interpreta alguém muito parecido com seu Tony Stark, principalmente quando usa o sarcasmo como defesa. Entretanto, com o passar do tempo, outras camadas vão sendo mostradas e Hank demonstra ser um personagem complexo e bem construído.

Ainda assim, a força motriz do longa é Robert Duvall, que foi merecidamente indicado ao Oscar. Joseph Palmer, ou Juiz, já demonstra ser um personagem forte desde os primeiros minutos em cena e o decorrer do filme não diminui sua grandeza. E Duvall consegue alternar muito bem todos os sentimentos (em sua maioria, conflitantes) do personagem, sendo perfeitamente frio em um momento ou generoso e sensível em outra cena pouco tempo depois.

No restante dos coadjuvantes, ainda tem alguns bons destaques, mesmo que o roteiro não dê grande destaque para alguns deles. Assim Vera Farmiga, Billy Bob Thornton, Vincent D’Onofrio (que vai ser o próximo Rei do Crime na série do Demolidor), Dax Shepard e Jeremy Strong não tem o foco do filme, mas conseguem brilhar em alguns momentos.

“O Juiz” é um filme pretensioso, mas não tem grandes falhas e cumpre o prometido. Não chega perto de ser o novo 12 Homens e uma Sentença, mas tem bons momentos para os alunos de Direito. Não é um Kramer VS. Kramer, mas tem momentos familiares intensos e emocionantes. Não é o filme perfeito, mas emociona, surpreende e prende o público. Ou seja, merece ser visto.