AODISSEIA
Filmes

O Jovem Ahmed: Fanatismo x humanismo

Os perigosos do radicalismo.


27 de outubro de 2019 - 21:43 - Tiago Soares

O Jovem Ahmed é um retrato de obsessão e extremismos perigosos

 

Desde crianças, a religião de nossos pais nos é imposta. É impossível contar quantas histórias de jovens rebeldes que desejam seguir seus próprios ideais ganham as telas. Mas acredito que nunca se viu o contrário, e é disso que se trata “O Jovem Ahmed”.

Na trama, Ahmed (Idir Ben Addi) é um muçulmano de apenas 13 anos de idade que vive na Bélgica. Seguindo os ensinamentos de um imã militante local (Othmane Moumen) e influenciado pelo primo extremista, ele não escuta as mulheres a sua volta e rejeita a autoridade até de sua mãe (Claire Bodson). Quando julga a professora (Myriem Akheddiou) como pecadora, o garoto decide matá-la pra impressionar Alá e os líderes religiosos. Depois disso, Ahmed precisa lidar com as consequências do ato, além de seus desejos pessoais.

Dirigido pelos irmãos Dardenne (Luc e Jean-Pierre), a obra ganhou melhor direção em Cannes este ano e não foi em vão. Cercada de uma sensibilidade inocente, os diretores procuram entender o universo cercado de costumes e regras vividas por Ahmed. Cada palavra, seguida de grandes planos que demoram uma infinidade, tornam o personagem chato, mas extremamente manipulável. Não interessados em focar no radicalismo religioso, a câmera dos Dardenne acompanha o protagonista como observadores ávidos e dispostos a mostrar a rotina de um religioso frustrado.

 

o jovem ahmed cena escola

 

A imprevisibilidade é uma das vantagens da produção. Não se sabe qual será o próximo passo do rejeitado Ahmed. O jeito introspectivo e as respostas curtas não são o suficiente para ler a personalidade do menino. Quando vai trabalhar numa fazenda e acaba se afeiçoando por Louise (Victoria Bluck), percebemos quão frágil e influenciável é o jovem. A ausência de uma figura paterna e o desejo de aprovação forçam o personagem a buscar um jeito menos problemático e mais aceitável, socialmente falando.

Ganhando nossa simpatia perto do fim, “O Jovem Ahmed” trabalha com elementos de suspense dentro de sua simpática história. Trilhando caminhos questionáveis no âmbito moral, Ahmed luta contra sua confusa ideologia, a medida em que enfrenta suas crenças mais profundas. Um certo bom humor desconfortável e pungente, o prepara para algo que a religião nunca o deixou experimentar: a vida.

 

*Filme visto na 43ª Mostra de São Paulo