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Na sessão de Quando as Luzes se Apagam, foi exibido o trailer de O Homem nas Trevas e uma reação me chamou atenção. Alguém dizia “isso não é terror, é suspense, terror é quando tem espírito”. Pensamento muito limitado o do colega, pois os maiores filmes de terror foram protagonizados por serial killers que antes de se tornarem imortais, eram humanos, os famosos slasher movies.

Há exemplo de David F. Sandberg e o seu Quando as Luzes se Apagam (Lights Out), o diretor uruguaio Fede Alvarez ganhou notoriedade após o sucesso de seu curta-metragem Panic Atack! (confira aqui). Assim como David que ganhou o status de pupilo aos olhos de James Wan, Alvares ganhou esses olhares de Sam Raimi. Dirigindo o remake de Evil Dead – A Morte do Demônio, o filme trouxe mais seriedade e menos do elemento trash que tinha o original. As semelhanças entre ambos param por aí, enquanto David ainda tem que apresentar melhorias depois do médio filme de estreia, Alvarez consegue entregar mais um bom filme que abusa de clichês do gênero e brinca magistralmente com eles.

Três jovens vivem de realizar pequenos roubos na cidade de Detroit, geralmente invadem casas quando os seus proprietários não estão e levam coisas de valor para vender, nunca levando dinheiro, até que surge o ilusório “último trabalho”. O trabalho consiste em invadir a casa de um velho cego, ex-veterano de guerra, que perdeu sua filha em um acidente de trânsito e recebeu uma bolada de indenização. Cabe aos três entrar na casa e levar o dinheiro, o que parece um trabalho mole, acaba não acontecendo e eles ficam como ratos presos numa ratoeira.

Alvarez abusa das câmeras no ombro dos personagens e é preciso pouco tempo de tela para desenvolvê-los. Uma linha de diálogo, uma citação, é tudo que o roteiro do próprio Alvarez precisa para mostrar que Rocky (Jane Levy), vem de uma família complicada e que de certa forma abusa dela, além de criar empatia na figura da irmã, Alex (Dylan Minnette) único membro do grupo que parece ter um certo juízo, tem um pai ausente e é bastante indeciso. Talvez o personagem com menos camadas seja Money (Daniel Zovatto) que só está ali pela grana e pelo perigo sem grandes pretensões.

Jane Levy;Dylan Minnette;Daniel Zovatto

A cidade de Detroit também acaba se tornando um personagem, pois o visual devastado da casa do velho cego, retrata muito bem a situação de todos os personagens e suas situações incluindo o possível antagonista. A partir da entrada na casa, o clima do filme fica mais denso e a tensão passa a nos acompanhar, até nos momentos em que nada acontece. Quando Stephen Lang (chamado apenas de Blind Man) entra em ação, o filme engata numa tensão, e a respiração só volta ao normal nos minutos finais e pra alguns nem isso, o que torna o título em inglês Don’t Breathe muito mais plausível.

Jane Levy, resgatada pelo diretor depois do ótimo trabalho em Evil Dead, está incrível, é de se estranhar que a moça, tão boa atriz, não tenha tanto destaque no cinema, ela tem a personagem melhor explorada, e um objetivo que não será abalado, nem pela figura com presença forte de Stephen Lang em seu melhor trabalho desde Avatar, seu blind man é um homem amargurado, que em seus ombros carrega o peso da solidão, além da sábia escolha de possuir poucas falas, um homem que só queria estar em paz, pelo menos é o que todos acreditavam até metade da projeção, em que tomamos um grande susto com a revelação de mais um personagem na casa.

Dylan Minnette;Stephen Lang

A trilha sonora de Roque Baños (Evil Dead, O Operário) é responsável por trazer a ambientação, principalmente na cena da escuridão total, curta, mas uma das melhores de todo o longa. A mixagem e edição de som é outro ponto a favor, pois uma boa experiência musical é muito importante para um filme de terror. Aliás, O Homem nas Trevas é sim um filme de terror e de certo forma em um plongée, Alvarez brinca com o título nacional, não de propósito claro.

Se seu final fosse mais pé no chão, O Homem nas Trevas tinha tudo para se tornar um dos melhores filmes de terror da década. Completamente surtado, com os dois pés fora da realidade, além de abusar do clichê do antagonista imortal, o final pode ser aceito pela maioria, mas destoa um pouco da proposta. Mesma assim estamos diante de uma mistura de terror e suspense de primeira e Fede Alvarez deixe de ser aposta e já é uma ótima realidade para o gênero.

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O Homem nas Trevas

8.5

Tiago Cinéfilo
Estudante de Comunicação e editor deste site. Criador, podcaster e editor do "Eu Não Acredito em Nada", o podcast de terror da Odisseia.

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2 Comments

  1. […] filme conta com boas participações de Gary Anthony Williams como um detetive e de Jane Levy (O Homem nas Trevas) quase irreconhecível […]

  2. […] no início, que vai se deteriorando com o tempo. Outro destaque é Dylan Minnette (Goosebumps/O Homem nas Trevas/o eterno filho de Jack em Lost) que vive Clay Jensen – o jovem consegue ser um rapaz tímido […]

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