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O Homem mais Procurado é um filme de espionagem, mas não se engane e espere algo a la James Bond ou Bourne. Como toda obra do brilhante John le Carré, o foco aqui é nos bastidores e na burocracia da espionagem, usando intrigas políticas e personagens que vivem nas sombras das cidades. Suas vidas,casas, carros e escritórios não são nada glamourosos e seu trabalho é complicado e cansativo.

O filme começa com a chegada de Issa, um sujeito meio checheno/meio russo, à cidadede Hamburgo, que se tornou um dos pontos mais vigiados do planeta após ser usada no planejamento do 11/09. Sua chegada cria suspeitas em Gunther e o leva a entrar em um jogo sujo entre várias intrigas e agências internacionais para armar um plano cujo objetivo é capturar um dos maiores financiadores do terrorismo internacional.

Da mesma maneira que em outras adaptações de le Carré, como O jardineiro Fiel e O Espião que Sabia Demais, esse também tem um texto complexo, pesado e extremamente critico, sendo que um dos grandes acertos do roteirista Andrew Bovell é não tentar retirar essa riqueza do material, como fazem os filmes mais recentes do tema. Entender que é esse clima que movimenta o filme é o primeiro para não escorregar em uma adaptação desse nível.

Mesmo que o início soe completamente confuso, enquanto apresenta muitos personagens, arcos e intrigas armadas, o roteiro se desenvolve de maneira correta e estabelece todas as peças pouco a pouco. É como se o público só soubesse o que os espiões liderados por Gunther soubessem, então tudo vai sendo descortinado de acordo com as ações e descobertas desses. Isso faz com que o filme, mesmo sendo lento, necessite de atenção total do espectador, já que não devemos esperar um personagem explicando o que aconteceu depois de um clímax revoltante e surpreendente.

Outro aspecto muito interessante do roteiro de Bovell está ligado ao desenvolvimento dos personagens. É extremamente complicado estabelecer e desenvolver tantos nomes em pouco mais de duas horas de longa, mas ele consegue realizar um trabalho digno usando a mesma tática usada nas ações. Ele dá um foco muito maior no desenvolvimento de Gunther para através dele apresentar e estabelecer os outros nomes. Quem também tem um destaque maior e em alguns momentos substitui o espião é a advogada interpretada por Rachel McAdams, já que ela é a conexão imediata com Issa.

Um bom exemplo disso é Martha Sullivan, uma espécie de diplomata americana que não tem seu próprio arco, aparecendo apenas ao lado de Gunther. Sabemos pouco sobre ela, mas logo de cara percebemos, pelos diálogos cínicos bem construídos entre os dois, que ela é uma peça importante para tudo o que acontece por trás das cortinas. É através desses diálogos também que surge uma das coisas mais interessantes do longa: a critica ferrenha ao método anti-terrorista desenvolvido pelos EUA na era Bush.

Sem nenhuma grande sequência de ação ou aparecimento de armas, o filme tem a difícil missão de prender o público apenas com sua história. Em parceria com o cada vez melhor Anton Corbijn na direção, Andrew Bovell consegue fazer isso de maneira exemplar. A parceria entre um texto certeiro e um ótimo jogo de câmeras faz com que qualquer movimento, como o assinar de um documento, seja algo tenso e complicado. O público fica preso na cadeira durante boa parte do filme esperando por uma traição que não sabemos de onde virá, por conta das tantas peças e intrigas estabelecidas.

Outra coisa que merece ser destacada no trabalho de Corbijn é a maneira como ele realiza uma direção próxima dos personagens. Usando constantemente a câmera de mão, mesmo sem abusar das trepidações como foi feito na série Bourne, ele filma tudo de um jeito meio documental que traz o público para dentro daquelas ações. Isso é só mais um fator do “jogo de esconde e mostra” realizado no longa, já que você tem seu olho guiado apenas para o que o personagem focado está vendo.

E na verdade é disso que qualquer filme de espião é formado, já que tanto o público quanto o personagem tem que descobrir o que está acontecendo. Todos tem que tentar entender como as peças estão encaixadas, como as engrenagens daquele jogo político estão girando até sermos surpreendidos com alguma informação que passou despercebida. A diferença é que aqui ninguém se preocupa em explicar isso para o público, ou seja, se você piscar por um segundo pode acabar não entendendo o que aconteceu no final.

Como já disse lá em cima, um dos trunfos da história são seus muitos personagens, sempre girando em torno de Gunther Bachmann. Como o experiente espião é brilhantemente interpretado por Phillip Seymour Hoffmann, o foco estar nele é muito bem-vindo. Bachmann é amargurado, pressionado e completamente cínico, sendo que Seymour Hoffmann demonstra isso de maneira simples no andar pesado e ofegante, nos vários tiques, nas falas friamente calculadas e até nas pontuais tiradas cômicas. Mesmo que o sotaque incomode um pouco às vezes, Phillip transforma um personagem complexo e cheio camadas em algo simples e interessante de ser visto, deixando cada vez mais claro que sua morte precoce irá fazer muita falta ao cinema mundial.

Nos coadjuvantes quem tem maior destaque são Rachel McAdams, Willem Dafoe e Robin Wright. Mesmo que seja estranho ver tantos americanos interpretando alemães, todos eles correspondem ao poder e a importância de seus papéis, tendo seus próprios momentos de destaque. Mas eu não poderia deixar de aplaudir mais uma vez o trabalho feito por Wright, em uma personagem tão cínica e complexa quanto o próprio Bachmann, sendo que os já citados diálogos entre eles são a cereja do bolo.

Um filme lento, cru, frio e muito inteligente que retrata o terrorismo e a espionagem através de uma nova visão. Uma visão menos glamourizada e mais burocrática que é muito bem vinda ao cinema que está se acostumando aos filmes focados perseguições e explosões surreais. Eu também acho que esses filmes tem seu valor, mas o diferente sempre merece ser exaltado por ter tido a coragem de alterar a correnteza da indústria e o resultado das equações. Merece ser visto pela história, pela construção narrativa intensa, pela direção e, principalmente, pela saudosista atuação de Phillip Seymour Hoffmann.

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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