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Séries

Crítica: O grandioso final de Sense 8

Com Lana Wachowski, Netflix entrega o seu melhor produto!

14 de junho de 2018 - 19:27 - Tiago Soares

Ao fim de Sense 8 e seu magníficos créditos personalizados (mostrando os bastidores da produção tal qual um filme, já que o episódio tem 152 minutos), o choro sai. Não um choro de tristeza, mas de realização. Ao assistir toda a série e principalmente o episódio final, é nítido o amor com queLana Wachowski e toda a equipe de produção colocaram ali, seja em termos técnicos, sentimentais ou ideológicos. A frase “Para os Nossos Fãs” e o simbólico ultimo take de Sense 8, com as cores do arco-íris, simbolo LGBT, é a prova disso.

Com o título de Amor Vincit Omnia (famoso termo de Virgilio, que em latim significa “O Amor Vence Tudo), Lana dá um recado – de que sem o amor – este final não seria possível. Para quem lembra, Sense 8 foi cancelada há 1 ano, o que gerou a revolta dos fãs mais apaixonados, principalmente os brasileiros, maior audiência da série. Tanto amor que a primeira exibição do episodio final aconteceu em São Paulo, com a presença de 5 membros do elenco.

O choro que mencionei lá no início, se deve muito mais ao que Lana e companhia poderiam ter feito com este material. Tudo que foi apresentado (até mesmo no último capítulo), renderia no mínimo mais 2 temporadas facilmente. O que vemos é um produto terminando de forma perfeita, com uma história amarrada, sem deixar nenhuma ponta (lê-se coadjuvante) de lado e muito fã service.

Paramos exatamente aonde a temporada passada tinha nos deixado. Aliás, este episódio é contabilizado pela Netflix como o 12º da segunda temporada. O cluster formado por Will (Brian J. Smith), Sun (Doona Bae), Nomi (Jamie Clayton), Capheus (Toby Onwumere), Lito (Miguel Ángel SilvestreRiley (Tuppence Middleton) e Kala (Tina Desaiestá com Susurros (Terrence Mann), e planeja fazer a troca com a OBP por Wolfgang (Max Riemelt), que não aprova a ideia, juntamente com River El-Sadawi (Amira Ghazalla), membra restante da antiga OBP e seus costumes, já que a organização planeja ter o antagonista como líder do program de sensates zumbi (nome dado por mim).

Uma caçada se inicia, e o episódio escrito por Alexander HemonDavid Mitchell e Lana Wachowski passa num piscar de olhos. O ritmo é excelente e as mais de 2 horas e meia se tornam minutos mais perto do fim daquilo que nos enchia os olhos. Sense 8 sempre entregou um nível de produção absurdo e aqui não é diferente. Mesmo juntos em Paris, o cluster ainda precisa “visitar” um ao outro quando suficiente, e o trabalho de edição segue brilhante.

Os coadjuvantes estão muito mais presentes e ajudam na ação, com destaque para Hernando (Alfonso Herrera), Daniela (Eréndira Ibarra), Bug (Michael X. Sommers), Detive Mun (Sukku Son), Diego (Ness Bautista), Felix (Max Mauff) e até Rajan (Purab Kohli). A cena em que se explica a ele o que é ohomo sensorium já é uma das melhores. Aliás, diversão é o que não falta. Ao contrário de nós que ficaremos tristes sem a série, Lana não deixa espaço para tristeza, em um episódio recheado de belíssimas cenas de ação (algo redundante se tratando dos Wachowski), humor (toda a interação do grupo, e deles com os coadjuvantes é maravilhosa), sem abrir mão do drama, que pesa mais pro fim.

Ssense 8 é tão grandiosa (seja em ambientação, locações ou cenários), seja em sua história. Aqui não é diferente, e temos praticamente dois episódios em um. Lana expande a mitologia do próprio universo, como se quisesse nos dizer “olha, nós tínhamos mais histórias pra contar”, ao mesmo tempo em que evolui os próprios personagens. É ótimo saber mais de Amanita (Freema Agyeman) e sua ligação com Nomi, conhecer as motivações de Jonas (Naveen Andrews) e Angelica (Daryl Hannah) antes de conhecerem o grupo. Talvez o único ponto unidimensional e fora da curva seja Lila Facchini (Valeria Bilello).

É claro que Sense 8 não abre mão de seus fãs, eles são a força que move tudo e não podemos deixar de falar da importância da representatividade. Mesmo terminando como um novela (em um casamento), a série introduz um discurso poderoso de aceitação a todo instante. É nítido ver que os atores se orgulham de fazer parte de um produto extremamente importante, para a que o preconceito e seu combate, sejam discutidos.

Há um exercício de sensibilidade de quem já viveu tudo isso. A grande equipe de produção que rodou o mundo é formada por gente de diferenças crenças, valores, orientações sexuais, que parecem encontrar um sentimento de conforto. É uma pena que Sense 8 não tenha agradado todos os públicos e conquistando uma audiência estrondosa como merecia.

Além do sentimento de perda, há um profundo sentimento de gratidão, não apenas a Lana, mas a Netflix. Para não cair no habitual “você não fez mais que a sua obrigação”, é importante ressaltar que a Netflix ouviu os fãs mais apaixonados e nos brindou com um fim bonito, digno e acima de tudo fiel ao seus personagens, que evoluíram, mas permaneceram com sua essência, mostrando que são a força motriz de uma série que tinha muito mais pra fazer. O cluster AINDA está vivo!