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Filmes

Critica: O Grande Hotel Budapeste


18 de junho de 2014 - 16:22 - Flávio Pizzol

gbh

Não preciso falar que, como apaixonado por cinema, sou fã do trabalho feito pelo diretor Wes Anderson. E esse O Grande Hotel Budapeste é um filme tão diferente que consegue ser singular dentro da carreira de um dos diretores mais excêntricos do cinema.

A história do filme gira em torno de Gustave H. e Zero, funcionários do hotel que dá nome ao filme, que veem suas vidas mudarem quando são incluídos em uma conspiração que envolve dinheiro, roubo de obras de arte e assassinatos.  Essa é uma sinopse válida, mas não expressa 30% da história mágica criada por Anderson com base na obra de Stefan Zweig, escritor austríaco que morreu no Brasil. Grande Hotel é um filme cheio de camadas e gêneros distintos unidos pelo magia de Wes Anderson.

Wes é um diretor jovem e muito talentoso que conta histórias sublimes de maneiras mais interessantes ainda. Todos os seus filmes tem histórias leves, divertidas e cheias de conteúdo, sendo completados por uma experiência estética estimuladora. E acredito que, nesse filme, o diretor atingiu seu ápice, elevando essa características ao máximo e levando sua magia para todos os aspectos do filme.

Vou começar pelo roteiro, que é diferente na sua essência, já que é composto de uma história dentro de uma história que é introduzida por outra história. Pode parecer confuso, mas não é, porque o filme, na verdade, é muito mais simples e explicado do que aparenta no seu início.

Depois desse começo, o público passa a acompanhar o relato do dono do antigo hotel para um jovem escritor. É só aí que somos apresentados ao concièrge – e personagem principal – Gustave H. e à história que vai tomar conta do filme. Também é nesse momento que Wes Anderson destila toda sua criatividade e transforma o filme em uma caricatura social disfarçada como thriller satírico. Isso tudo sem perder o tom da comédia, que permeia todas as cenas e personagens, até quando ele trata de temas mais sérios, como a guerra.

Tudo é apoiado nos personagens, que são magicamente construídos e interpretados por um elenco mais do que espetacular. O filme é carregado por um genial Ralph Fiennes, que faz de Gustave um personagem tão divertido quanto complexo, e pelo novato Tony Revolori. A química dos dois atores é incomparável e deixa o filme ainda mais dinâmico.

Os dois atores citados carregam o filme nas costas, mas são constantemente ajudados por diversos atores de calibre escolhidos com capricho para dar voz aos personagens propositalmente caricatos. Em um universo onde até os vilões arrancam risos estão – respire e não perca a conta – Adrien Brody, F. Murray Abraham, Willem Dafoe, Jeff Goldblum, Harvey Keitel, Jude Law, Edward Norton, Saiorse Ronan, Léa Seydoux, Tilda Swinton, Tom Wilkinson e os antigos colaboradores de Anderson: Owen Wilson, Bill Murray e Jason Schwartzman.

Muitos desses atores aparecem menos de 5 minutos, mas têm o tom certeiro e a importância devida dentro da intricada trama que não perde o ritmo, nem esquece de desenvolver seus elementos primordiais. E ainda tem gente que fala que as histórias de Wes são vazias.

Para completar o filme só falta falar da excêntrica, meticulosa, irresistível e marcante direção de Wes Anderson. De maneira similar aos seus dois filmes anteriores, O Fantástico Sr. Raposo e Moonrise Kingdom, ele cria um universo fantástico completamente atemporal, que não deixa, em nenhum momento de ser crível.

Unida a essa fantasia simples e um pouco infantil (em alguns momentos) estão os peculiares movimentos de câmera simétricos e os travellings, consagrados pelo diretor em sua filmografia, que atravessam paredes e cenários tão meticulosamente construídos, que, à primeira vista, parecem ter sido pintados em telas.

Aí entra o mérito da parte técnica diferenciada que sempre acompanha os filmes de Wes. Afinal, o que seria desse universo imaginado pelo diretor, se não existissem artistas prontos para acompanhar suas loucuras? E nesse filme isso é ainda mais evidente. Não consigo explicar o que seria de Grande Hotel sem a cenografia e fotografia de cores vivas, a direção de arte e o figurino recheados de elementos de várias épocas e a trilha sonora que marca o ritmo do filme e envolve o espectador.

No fim das contas, O Grande Budapeste Hotel é um filme divertido que pode agradar qualquer um, mesmo que o estilo diferenciado de Wes Anderson não agrade todo tipo de público. Um elenco, uma direção, um roteiro e uma técnica que acompanham a majestade do hotel e da carreira de Anderson, fazendo desse um dos grandes filmes do ano.