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Séries

O fim de One Day at a Time – Quem perdeu foi a Netflix!

Série trazia temas importantíssimos e atuais de maneira leve e divertida


5 de abril de 2019 - 23:51 - Tiago Soares

Pelo seu enredo, “One Day at a Time” não precisaria de uma continuação. A série da Netflix criado por Gloria Calderon Kellett e Mike Royce, terminou com todos os seus personagens encontrando sua paz ou melhor dizendo – seu final feliz particular, claro – com exceção de algumas perguntas sobre quais caminhos os Alvarez seguiriam posteriormente. Mas porque tanta comoção com o cancelamento da série pela Netflix? Simples, a importância de ODAAT vai além de sua história simplória e encontra forças no debate de assuntos importantíssimos na atual sociedade, atrelada a um senso de humor absurdo.

A série acompanha a família Alvarez que veio de Cuba para os EUA a fim de encontrar um lar para chamar de seu. Lidya “Abuelita” Alvarez (Rita Moreno) é a grande matriarca da família. Linda, divertida, cheia de vida e extremamente engraçada, a personagem ainda possui inúmeros ideais de sua época que precisam ser desconstruídos e a série faz isso com perfeição. Sem forçar uma mudança imediata, o roteiro da sitcom enche a personagem de diálogos risíveis, muitos deles cercados de uma visão do passado em Cuba e da vinda para os EUA, sempre com muito amor pelo marido Berto (Tony Plana) que apesar de não estar mais entre eles, participa bastante em flashbacks e alucinações “do bem”.

Sua filha Penélope (Justina Machado) move a série, a personagem é a veterana de guerra e mãe dedicada disposta a compreender os filhos na mesma medida em que os disciplina. Sofrendo de depressão, stresse pós-traumático e inúmeras crises de ansiedade, “Lupita”– como é chamada carinhosamente por todos, mostra a importância de tratar estes males psicológicos como as doenças que de fato são. Seja tomando seus remédios ou fazendo terapia em grupo, a personagem compreende que seus anseios e frustrações fazem parte da vida. Apesar dos problemas, Penélope está sempre em busca do melhor , seja para ela ou para os filhos, ao mesmo tempo em que tenta superar o machismo no trabalho, problemas de autoestima e autoconfiança, além da própria vida amorosa e sexual.

Sua filha mais velha Elena (Isabella Gomez), é a adolescente sempre disposta a lutar por uma causa. Assumidamente lésbica, a personagem traz discussões interessantes sobre luta de classes, identidade de gênero e conflito de gerações. Mantendo uma relação fofíssima com a não-binário Syd (Sheridan Pierce) [ainda não temos o gênero “neutro” em português, por isso a utilização do artigo “a”], as duas discutem a relação de maneira madura, nunca perdendo o bom humor e pegada de casal nerd cercada de referências. Definição e nomenclaturas dos gêneros, sexo pela primeira vez e uma constante luta contra a ansiedade, também fazem parte da vida de Elena.

Seu irmão mais novo Alex Alvarez (Marcel Ruiz), poderia ser só mais um daqueles adolescentes chatos e unidimensionais que compõem elenco, já que está cercado de mulheres fortes. Ao invés disso a série o torna um jovem maduro, sempre disposto a aprender – discutindo temas como masculinidade tóxica, assédio sexual, confiança entre mães e filhos, além de um debate sobre o uso de drogas. A relação de todos com o pai Victor (James Martinez), que sempre surge do nada, abre um leque de discussões sobre paternidade e responsabilidade afetiva/emocional. O vizinho e dono do prédio Schneider (Todd Grinnell) é o típico esteriótipo do branco privilegiado amigo da família cubana, mas consegue ir além disso vivendo a pressão do pai para ser alguém bem sucedido. Mesmo lutando contra o alcoolismo e mostrando a importância dos grupos de apoio, ele é um dos mais divertidos – sempre com um humor ácido, inocente e pontual.

“One Day at a Time” é tão revelante que conseguiu até dar um arco plausível e identificável ao Dr. Leslie Berkowitz (Stephen Tobolowsky), chefe de Penélope e amigo da família. Além de possuir um humor peculiar, o personagem lida com a ausência da filha e de como a maioria as famílias negligenciam seus avós e parentes depois de uma certa idade. Diferente de Sense 8, ODAAT tinha um elenco pequeno, utilizava poucos cenários e com certeza não era uma série de alto investimento para a Netflix, ao mesmo tempo que seu cancelamento foi justificado por um baixa audiência que nunca foi divulgada. Sendo assim, o que fica é a riqueza destes personagens que nos alegraram durante 3 anos e 39 episódios lutando contra o preconceito, o racismo, a homofobia, a imigração e a xenofobia, mas nunca deixando de perder aquilo que os tornou únicos: o poder que a família tem de nos fazer sorrir.


Obs: Segundo o Deadline, a CBS All Access (canal de streaming de séries como Star Trek Discovery e The Twilight Zone), deseja salvar a série, mas um impasse no contrato com a Netflix impediria tal acerto, já que a série só pode ser “resgatada” por um canal tradicional e não por uma concorrente pelo menos em até 24 meses.