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Filmes

O Farol (The Lighthouse): O mito do homem são

Novo filme de Robert Eggers é um dos mais esperados da temporada.


6 de novembro de 2019 - 06:59 - Tiago Soares

Em coletiva de imprensa aqui no Brasil, Robert Eggers foi perguntado se já tinha visto “O Iluminado”, a qual respondeu com um quase exaustivo “é óbvio”. Segundo ele para criar tensão, seja qual for o gênero, é obrigatório assistir ao clássico de Stanley Kubrick, baseado na obra de Stephen King. Não obstante, o seu novo filme bebe bastante da fonte da obra citada ao criar um universo penetrante, seja visualmente ou narrativamente falando. Se Eggers já nos deixava encantados com sua atmosfera única em “A Bruxa”, faz algo ainda mais imersivo em “O Farol”.

No início do século XX, Thomas Wake cuida de um farol bem distante e contrata o jovem Ephraim Winslow para auxiliá-lo nas tarefas diárias. No entanto, o acesso ao farol é mantido em segredo e somente Thomas pode “cuidar” da luz. Enquanto se conhecem e evidenciam suas diferenças, os dois homens presenciam uma série de acontecimentos bizarros. Ou seja, o cineasta continua a trabalhar no campo da sugestão e entrega poucas explicações daquele universo.

Conhecemos os dois homens através de relatos dos próprios, e sabemos tanto quanto eles sabem sobre o lugar e eles mesmos. O design de som e a belíssima fotografia em preto e branco de Jarin Blaschke, unido ao uso de sombras que lembra bastante o expressionismo alemão e os filmes da década de 30, nos leva para aquele lugar. Somos os terceiros faroleiros ávidos pelas histórias contadas. Em certo momento, Thomas e Efraim olham para a câmera e praticamente nos convidam para uma jornada pela permanência da sanidade mental.

Willem Dafoe está visceral, desde a curvatura de seu corpo até a impostação de voz como um pirata cansado. Robert Pattinson anda na linha tênue entre o overrated e a completa inércia. Pode surpreender quem não acompanha a carreira recente do ator, no entanto o novo Batman está divino no melhor papel de sua vida. Nos questionamos quem destes homens vai enlouquecer primeiro, se algum deles já chegou insano naquele lugar, ou se foi o tempo que os deixou assim. Essas figuras tão diferentes de fato existem, ou são produtos de nossa imaginação?

Eggers sabiamente flerta com nossa própria capacidade de pensar, afinal em quem podemos acreditar? O farol guarda para si algo espetacular e não revelado, mas aqueles homens não querem nada fantasioso a não ser sair de suas condições. Suas miseráveis vidas clamam por um afago, que às vezes encontram um no outro. Existe um flerte, um desejo sexual não revelado que Eggers apenas insinua, mas que permanece. Ele desconstrói a masculinidade, à medida em que trabalha o envolvimento destes homens com os mais variados mitos e criaturas do mar.

Uma loucura pungente diluída em performances excelentes, “O Farol” também pega bastante de “Os Pássaros” de Hitchcock e constrói algo único através da união entre estilo e conteúdo. Não diria que estamos diante de um filme de terror apenas, mas de fantasia, suspense e certas doses de comédia. Levando em conta que o que nos assusta é relativo, o final da produção também é, já que é menos palatável do que se espera. Indo em busca do prazer e forte simbolismo, a tela em 1.19:1, fecha estes dois homens num isolamento manipulador, repleto de sujeira e paranoia.


Obs: O filme chega aos cinemas brasileiros no dia 02 de janeiro de 2020.


*Filme visto na 43ª Mostra de São Paulo