AODISSEIA
Filmes

Crítica: O Doutrinador é um anti-herói com sangue brasileiro

Política, quadrinhos e violência reunidas em uma origem que cumpre sua proposta

2 de novembro de 2018 - 12:22 - Flávio Pizzol

Quero começar esse texto adiantando o resumo da história toda: O Doutrinador é uma mistura razoável entre Tropa de Elite, O Mecanismo e Batman que pode ser considerado, apesar dos escorregões, uma boa estréia do cinema nacional nesse universo de heróis, anti-heróis e seus arqui-inimigos. Um filme bacana que resultaria em um texto fácil de ser escrito, caso não estivéssemos vivendo em tempos complicados para se falar sobre política. E foi justamente a delicadeza em torno de um tema central ao longa que fez com que a adaptação dos quadrinhos de Luciano Cunha (que já estava pronta há algum tempo) demorassem tanto para chegar às telonas.

Afinal, pra quem não conhece a trama, o longa acompanha um policial traumatizado com a morte da filha que decide concentrar sua raiva nos políticos e atuar como juiz, júri e executor de uma vez só. Pra isso, ele coloca uma máscara estilizada, assume a persona de um anti-herói e sai matando os políticos corruptos da maneira mais violenta e cartunesca possível. Uma proposta completamente politizada e atual que poderia ser facilmente deturpada por seres humanos de todos os lados políticos que insistem em não prestar atenção no todo e ainda atacar – verbal e fisicamente – aqueles que pensam ou agem de maneira diferente da sua.

E eu decidi começar a crítica falando sobre todo esse contexto, justamente porque um dos principais acertos de O Doutrinador é falar sobre o tema em questão sem escolher lados ou fazer referência direta a qualquer personagem real. Por mais que a violência inserida em certas decisões possa criar vínculo com a direita, o trunfo do roteiro de L.G. Bayão (Motorrad) e Rodrigo Lages (Em Nome da Lei) está em definir logo de cara que o anti-herói que dá nome ao longa quer acabar com a corrupção em todos os seus níveis e aspectos. Um construção de narrativa cuidadosa que passa pela motivação relativamente simples do protagonista, por uma “vilanização” exagerada dos políticos para que o público crie certa repulsa sem depender que os tais lados políticos sejam sequer citados e até mesmo pela criação de um estado fictício para abrigar a história. Algo que, mesmo seguindo na contramão do realismo presente nos quadrinhos, ajuda a afastar qualquer sugestão que possa enfurecer uma ou outra parcela dos espectadores.

Saindo um pouco da delicadeza das questões políticas para chegar ao filme de fato, outro grande acerto da produção está nas escolhas visuais feitas pelos jovens diretores Gustavo Bonafé (Chocante) e Fábio Mendonça (A Noite da Virada). Dois nomes conhecidos por longas de comédia que conseguem se aproximar de maneira eficiente do sombrio e realista presente na maior parte das produções envolvendo anti-heróis e aproveitar o máximo do seu aspecto cartunesco sem esquecer de injetar algumas doses – mesmo que pequenas e homeopáticas – de uma identidade brasileira. Dentro disso, vale citar, por exemplo, que a maneira como eles decidem filmar a cidade (com muitas luzes, planos aéreos e uma sujeira constante) ajuda tanto a construir um certo senso de abandono político, quanto adiciona alguma grandeza à uma produção que tinha tudo para sofrer bem mais com seu orçamento limitado.

Isso não significa que o filme não tenha cara de série de televisão em algumas sequências, mas a direção se vira como pode e surpreende até mesmo no aspecto que mais gerava desconfiança neste que vos escreve: as cenas de ação. Afinal, assim como estamos falando de um longa político que exige cuidado, também estamos lidando com um anti-herói que, nos quadrinhos, se destaca por confrontos corpo a corpo e ataques armados. Nesse caso, Gustavo e Fábio optam por fazer o simples e isso é um acerto considerável. É a melhor maneira de evitar que as possíveis falhas nas coreografias fiquem aparentes ou que a montagem cheia de cortes torne tudo confuso. O resultado dessas escolhas são sequências que conseguem prender razoavelmente a atenção do espectador, criar momentos que se sobressaem ao restante da produção e, finalmente, usar boas doses de sangue para dar vida aos traços violentos do material original com bom uso do já citado visual cartunesco.

Só é uma pena que o roteiro de O Doutrinador não consiga se apropriar desse lado com a mesma eficiência que a direção, resultando em vilões que ultrapassam o limite da caricatura ou diálogos que soam simplesmente ridículo. Ainda que nada disso interfira propriamente na andamento da história em si, o conjunto deles cria um problema de tom que prende a narrativa entre a construção eficiente do clima sombrio e a tentativa constante de fazer piadas ou criar bordões à la Tropa de Elite. E, sim, eu entendo o objetivo dessas tentativas, mas também acho que a falta de cuidado não só impede que qualquer uma dessas falas entre pro imaginário popular, como afundam boas cenas através de conclusões sem nenhum impacto.

Por outro lado, se isso é um problema que pode ser ignorado facilmente, o desleixo com que o terceiro ato é tratado não pode passar batido. E falo assim porque o longa começa muito bem. O primeiro ato é direto na apresentação dos personagens, do contexto e, principalmente, da relação entre o protagonista e sua filha. É tudo muito ágil, porém a eficiência da introdução faz parte da sustentação do longa durante um segundo ato onde o foco está na violência do tal Doutrinador. E tudo isso funciona até o último terço do longa se entregar a uma confusão que envolve personagens importantes sumindo completamente, policiais descobrem coisas do nada e um excesso de supostos momentos climáticos que acabam soando anti-climáticos. São coisas pequenas que vão, aos poucos, tirando o espectador da sua imersão e minando a conclusão de um filme que vinha acertando em coisas mais difíceis.

No entanto, apesar desses incômodos que não devem ser ignorados, a maioria deles não tem força suficiente pra destruir a experiência cinematográfica de ver uma história em quadrinhos independente ganhar vida no cinema nacional. Quem lê minhas críticas já sabe que eu tenho o costume de aplaudir essas tentativas de fazer algo diferente, e o fato desse ser o primeiro passo para um projeto que pode alimentar nossa indústria com uma franquia multimidiática adiciona alguns pontos nessa equação. E digo isso sem nenhum problema, porque estou sim falando de um filme objetivo que, mesmo com seus escorregões, manda bem nas escolhas políticas, acerta nas cenas de ação e cumpre sua proposta de servir como origem para um anti-herói nacional. Com um pouquinho mais de cuidado no texto, O Doutrinador pode alcançar seu potencial completo e se tornar uma marca poderosa da cultura pop brasileira.


OBS 1: Durante o filme isso não me incomodou, mas a reflexão ficou na minha cabeça. Então vou deixar aqui como pergunta: vocês acham que faltou o roteiro de O Doutrinador explorar mais a discussão entre certo e errado que cercam as escolhas do protagonista?

OBS 2: Considerem essa nota 3 como um 3,5. A gente não usa notas quebradas, mas dessa vez um quatro se mostrou exagerado diante dos problemas do longa, enquanto um três pareceu ser pouco para um filme que acaba sendo acima da média.