AODISSEIA
Filmes

O Desejo de Ana: Memórias de um passado polêmico

Impulsividade latente...


21 de outubro de 2019 - 23:56 - Tiago Soares

Quando Ana olha para a janela do vizinho e vê um casal fazendo sexo, ela encara a cena por bastante tempo, dando um certo presságio do que virá a seguir. Vivendo uma vida tranquila num apartamento de classe média no México, Ana (Laura Agorreca) e o filho Mateo (Ian Garcia Monterrubio), não tem com o que se preocupar, até a chegada de Juan (David Calderón León), irmão de Ana. O homem muda completamente a rotina e a relação dos dois, gerando memórias de um passado tanto traumático quanto prazeroso em “O Desejo de Ana” (El Deseo de Ana).

Andando por vias perigosas, o filme de Emilio Santoyo contrasta a timidez da protagonista com o jeito descontraído e pulsante de Juan. Passando por cima das ordens de Ana, o jovem rapidamente recebe o apreço do filho dela. Com poucos cortes e planos bem longos, o cineasta trabalha o desejo e a obsessão, potencializadas pelo texto escrito em parceria com Gabriela Vidal. Tudo fica nas entrelinhas, até que o ato sai literalmente das sombras, em uma bela cena com o uso do tom vermelho.

As memórias se misturam. Passado e presente se entrelaçam, enquanto Ana e Juan passam por um embate moral a cada olhar e palavra trocada. É uma pena que este questionamento é apenas pincelado, dando lugar ao ciúmes e sentimento de posse, algo bastante raso para um tema tão complexo. A indiferença causa desconforto. O espectador não sabe se torce para aquilo dar certo ou se sente completa aversão à prática.

Nada sutil, “O Desejo de Ana” está claro desde o início, sem rodeios. É a monotonia versus a geniosidade, a razão versus a imprudência. Em determinado momento ambos estão tão ligados que não é possível saber onde está cada coisa. O epílogo desnecessário, não ajuda um final que poderia ser perfeito e mais instigante do que é.

 

*Filme visto na 43ª Mostra de São Paulo